Estivemos no lançamento do livro “A Elitista Inconsciente”, de Fernando Luiz Andrade, em São José, SC. A leitura do livro de crônicas foi incrivelmente divertida, apesar de se tratar de uma atenta observação do cotidiano nestes dias “mitificados” da história brasileira, e por isso mesmo, poderia ser uma narrativa triste, mas não é.
Com sua habilidade de escrita interpretativa o escritor desenha em palavras a volatilidade das convicções na sociedade narcisista. Suas intervenções sarcásticas podem ser estendidas ao contexto global, embora estejam circunscritas ao bisonho momento político brasileiro, com suas estranhas manifestações do ego republicano que cria uma aparente realidade particular entre sonhos e pesadelos, pedindo assim uma boa dose de humor para ser descrita, lida e compreendida.
As artimanhas de meta-mensagens utilizadas para falar sobre as facetas inenarráveis do obtuso personagem político brasileiro e seus fãs descrevem o pobre de direita, e seu papel de esterilidade social, capaz de o enceguecer para as medidas drásticas tomadas pelo presidente e seus males rapidamente sentidos pelo bolso do consumidor.
Trata de “infindáveis” anos de uma governança plena de ocasos, perdas, insatisfações, porém, nada é sentido ou considerado pelos que se envolvem no anti-republicanismo vigente.
Talvez por terem sido verdadeiramente beneficiados em caráter individual ou de categorias pelas medidas governamentais e políticas violentas executadas, o escritor exclui das suas narrativas os ricos tomados pelo ardor nazi-fascista, mas retrata muito bem os pobres defensores da distopia, que despontam como anômalos, haja vista a imensa divergência de interesses de classe e condições socioeconômicas inferiores.
O humor é uma ponte leve, que interliga um intelectual excêntrico ao morador comum de um condomínio e a musa do livro, a elitista.
Mas não é uma narrativa simplista.
Elementos políticos dispersos, como o sal jogado sobre a salada, traz um sabor de análise inconteste da conjuntura brasileira. O resgate simbólico da esperança é jogado nas mãos do tempo, que soluciona todos os conflitos, nem que seja pelo desgaste do limo.
Fica nas entrelinhas que suportando a dor ela também passa, embora o largo universo da amoralidade política seja alimentado pela inconsciência dos que sustentam a cotidianidade operosa, o sorriso consciente e antenado com as realidades brota como alternativa.
Afinal, enaltecer o cotidiano é tarefa de gente sobrevivente. Mesmo quando entre outras histórias, a protagonista seja inconsciente.
Leitura recomendada e certeza de ser excelente opção para presentear amigos.






