A crise silenciosa do diagnóstico de autismo em adultos no Brasil

Por Silvio Rodrigo

Apesar dos avanços nas diretrizes internacionais sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA), adultos que buscam diagnóstico no Brasil ainda encontram um sistema desatualizado, marcado por estereótipos, avaliações superficiais e resistência profissional. 

O problema é ainda mais evidente em estados como Alagoas, onde a procura por respostas esbarra na falta de formação específica e no peso de decisões políticas que recaem sobre os serviços de saúde.

Longe de ser um procedimento baseado em evidências e artigos científicos, a avaliação clínica em consultórios tem se mostrado dependente da intuição, de estereótipos defasados e do “know-how” individual do médico, que, muitas vezes, sequer aceita a moderna noção de espectro.

Relatos de pacientes em Alagoas, apontam para uma prática diagnóstica que beira o preconceito. “O médico olhou para o meu rosto, procurando a ‘cara de autista’,” conta uma paciente que preferiu não ser identificada. “Como eu falo e interajo socialmente, ele afirmou que eu não poderia ser autista, ignorando a avaliação neuropsicológica que ele sequer sabia interpretar.”

O diagnóstico de TEA é clínico e exige análise minuciosa do histórico e do funcionamento da pessoa. Ainda assim, muitos profissionais seguem baseando sua avaliação em ideias ultrapassadas, como a existência de uma “cara de autista” ou a divisão entre autismo “leve” e a antiga categoria Asperger, excluída dos manuais há mais de uma década. 

“Se o paciente fala bem, interage socialmente ou não apresenta interesses considerados típicos, como dinossauros ou planetas, o diagnóstico é rapidamente descartado”, relatam pessoas que passaram pelo processo.

Em consultas que duram poucos minutos, médicos afirmam que não há sinais visíveis do transtorno. Outros se mostram inseguros ao interpretar testes neuropsicológicos e, diante da dúvida, preferem negar o diagnóstico a encaminhar o paciente a um especialista. Segundo relatos, neurologistas chegam a examinar o rosto da pessoa na tentativa de identificar indícios visuais do TEA,  um método sem qualquer respaldo científico.

A dificuldade em diagnosticar o chamado “autismo leve” é agravada pela prevalência de estereótipos. Muitos profissionais ainda esperam o perfil clássico, como movimentos repetitivos óbvios. “Se não parece, logo, não é. Se não identifico movimentos repetitivos, logo, não é”. 

Essa é a lógica que tem dominado a avaliação em consultas de cinco minutos, negligenciando a expressão clínica das dificuldades e os prejuízos reais na vida diária do indivíduo. A recusa em aceitar testagens especializadas e a persistência em termos como “Asperger” (não utilizado nos manuais diagnósticos atuais) revelam um fosso entre a academia e a prática clínica.

O resultado é uma disparidade gigantesca no entendimento entre profissionais de saúde, onde a humildade de encaminhar para um especialista é raramente exercida.

A dificuldade na avaliação, porém, não é apenas técnica: carrega também uma dimensão política. Profissionais relatam pressões implícitas ligadas à ideia de que adultos autistas nível 1, com fala preservada e sem deficiência intelectual, não deveriam acessar direitos previstos em lei. 

Alguns médicos se colocam como “zeladores do orçamento público”, resistindo a conceder laudos que permitam solicitar benefícios como o Benefício de Prestação Continuada (BPC), mesmo sem discutir seriamente as políticas de assistência social envolvidas. Nessa visão, o acesso a benefícios como BPC o ou cotas de empregabilidade é frequentemente visto como um privilégio indevido, e não como uma medida de equidade para garantir a inclusão.

Para quem depende do diagnóstico, as consequências são profundas. Sem o reconhecimento formal, muitos adultos ficam presos a subempregos altamente estressantes ou enfrentam dificuldades de adaptação no serviço público, onde a falta de estrutura e a ausência de políticas efetivas de inclusão tornam a permanência quase impossível. 

“Mesmo com laudo, é difícil encontrar emprego. O risco de ser visto como um problema pesa”, relatam.

Há também uma grande disparidade entre profissionais. Neuropsicólogos que inicialmente descartam a hipótese por estereótipos acabam confirmando o diagnóstico após uma avaliação detalhada. 

“Eles até sabem algo, mas não estão atualizados, têm dificuldade com evidências, com estatística e com pesquisa de qualidade”, afirma um dos depoimentos. A falta de humildade para reconhecer limites e encaminhar o paciente para especialistas aprofunda a precariedade do processo.

O resultado é um cenário em que adultos autistas nível 1 – frequentemente chamados de “menos autistas” – carregam o estigma, a desinformação e agora a ameaça de revisão de direitos. Para muitos, trata-se de mais um retrocesso que reforça velhas exclusões: a de que só merece apoio quem atende ao estereótipo da deficiência evidente.

Enquanto o debate público avança lentamente, pacientes seguem enfrentando uma jornada solitária em busca de reconhecimento e dignidade. O diagnóstico, que deveria ser uma ferramenta de cuidado, continua dependendo não apenas de critérios técnicos, mas da postura, do conhecimento e até das crenças políticas de quem avalia.

Recentemente (13/11), porém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sancionou a Lei 15.256, publicada no Diário Oficial da União, que amplia o acesso ao diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) entre adultos e idosos.

A norma acrescenta um novo inciso à Lei 12.764/2012 (Lei de Proteção aos Autistas), reforçando a garantia de direitos ao determinar o aumento da oferta de atendimentos destinados à identificação do espectro ao longo da vida. 

Com isso, o incentivo ao diagnóstico tardio passa a integrar oficialmente as diretrizes da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com TEA. Apesar de o IBGE apontar 1,2% da população brasileira com diagnóstico formal, esse percentual não corresponde à realidade, dada a vasta população que chega à maturidade com seu autismo confundido com ansiedade, depressão ou esquizofrenia.

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