A CPI, a chave e a caneta

Certamente, quando decidiu dar as ordens para criar a CPI, numa clara tentativa de se vingar de inimigos políticos e de tirar o foco da sociedade sobre o julgamento do mensalão

Plácido Fernandes Vieira- Correio Braziliense

O governo federal, apesar de tudo indicar que Dilma não queria a CPI do Cachoeira, uma bola nas costas enfiada por Lula, tem tudo para manter as investigações sob controle. Nunca antes na história deste país, o Palácio do Planalto contou com maioria tão avassaladora numa Comissão Parlamentar de Inquérito (80% dos cargos). São seus escudeiros tanto o presidente dos trabalhos (PMDB) quanto o relator (PT). E um fator crucial para ditar os rumos dos acontecimentos: dispõe da chave do cofre para liberar dinheiro e da caneta que põe e tira gente de cobiçados cargos oficiais. Na política, todos sabem, uma nomeaçãozinha aqui, uma liberaçãozinha de verba acolá podem fazer milagres.

Certamente, quando decidiu dar as ordens para criar a CPI, numa clara tentativa de se vingar de inimigos políticos e de tirar o foco da sociedade sobre o julgamento do mensalão, Lula levou em consideração esse conjunto de fatores. Além disso, reforçou a infantaria petista na internet. Principalmente nas redes sociais. Seu exército de tuiteiros %u2014 que atua em defesa de causas aparentemente risíveis, como a de que o mensalão seria uma farsa %u2014 é tão poderoso que já se mostrou capaz de liderar o assunto mais comentado do Twitter em determinados momentos. Trata-se de uma ferramenta de pressão ainda muito restrita à web. Mas sua influência, sobretudo entre a juventude que já não separa vida real de virtual, não pode de jeito nenhum ser menosprezada.

Tem razão o senador Pedro Simon quando alerta para o risco de Cachoeira ser assassinado e pede proteção oficial para o contraventor. Afinal, além das espionagens da Polícia Federal que vêm à tona a conta-gotas, teme-se a existência de gravações inéditas e comprometedoras feitas pelo próprio bicheiro. Se divulgadas, essas revelações poderiam ter alcance devastador, assim como ocorreu no maior escândalo de corrupção da história de Brasília, detonado pelo delator Durval Barbosa. Até porque, fora de controle do governo e da CPI, se transformariam em nitroglicerina pura ao chegar ao conhecimento da sociedade. Não é à toa que tanto governistas quanto oposicionistas temem os desdobramentos dessa investigação. E tenha certeza: quando eles temem a informação sem mordaça é porque o Brasil só tem a ganhar.

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