O dragão recatado

A concepção lulista das relações internacionais continua dominante em Brasília.

Rolf Kuntz – Estadão

Muito mais notável que o  diagnóstico – é preciso ajustar o modelo chinês – é o fato político. O  governo da China, segunda maior economia do mundo, maior emergente e  única potência industrial ainda sujeita a um regime de partido único,  fez dobradinha com o Banco Mundial para estudar um roteiro econômico  para os próximos 18 anos. China 2030 é o título do relatório de 468  páginas preparado por economistas do banco e do Centro de Pesquisa de  Desenvolvimento, órgão do Conselho de Estado da China. O prefácio é  assinado pelo presidente do centro, Li Wei, e pelo presidente do Grupo  do Banco Mundial, Robert Zoellick, esnobado pelo presidente Luiz Inácio  Lula da Silva como “sub do sub”. Nesse tempo, Zoellick chefiava a  diplomacia comercial da potência número um, mas o presidente brasileiro  parecia desconhecer ou menosprezar esse detalhe.

A concepção  lulista das relações internacionais continua dominante em Brasília.  Segundo essa concepção, o mundo é uma versão ampliada do ABC paulista e  os países correspondem, na escala micro, a patrões e empregados. Por  isso, a linguagem adequada para falar ao mundo é a das assembleias de  Vila Euclides. Esse foi o critério seguido pelo presidente em todas as  suas manifestações internacionais. Ainda é, com pequenas mudanças, o  padrão da diplomacia econômica petista. A atuação do ex-presidente podia  ser mais pitoresca, mas a mensagem se mantém.

Segundo esse  discurso, os interesses dos emergentes são essencialmente iguais e se  opõem, de modo geral, aos dos países capitalistas mais desenvolvidos. A  tese vale, portanto, também para os componentes do Bric – Brasil,  Rússia, Índia e China. A maior parte dos emergentes parece ter outra  visão, porque esses países quase nunca apoiam as pretensões brasileiras  (a um posto permanente no Conselho de Segurança da ONU, por exemplo) e,  além disso, dão prioridade comercial aos parceiros mais desenvolvidos.

De  acordo com o mesmo discurso, o Grupo dos 20 (G-20), formado pelas  maiores economias desenvolvidas e em desenvolvimento, é o fórum  econômico mais importante e suas decisões pautam as instituições  multilaterais. Novamente os fatos negam a tese. Superada a pior fase da  crise de 2008-2009, diminuiu a cooperação entre os membros do G-20, como  assinalou já em 2010 Dominique Strauss-Kahn, então diretor-gerente do  Fundo Monetário Internacional (FMI). Nestes dois anos, a ação do grupo  tem sido pouco relevante.

Além do mais, o Fundo, o Banco Mundial, o  Banco de Compensações Internacionais (BIS) e o Conselho de Estabilidade  Financeira sempre se anteciparam ao G-20 na identificação de problemas  estruturais e na formulação de estudos e de propostas, até porque  dispõem de equipes técnicas permanentes e de acesso regular às fontes de  informação.

A crise não acabou, novos desafios surgiram e o  efetivo ganho de relevância foi para as instituições multilaterais. O  disco petista continua girando, no entanto, e o ministro da Fazenda,  Guido Mantega, prossegue em sua cruzada ruidosa para levar os emergentes  e pobres ao poder no FMI e no Banco Mundial. As reformas no sistema de  cotas e na gestão do Fundo prosseguem, como prosseguiriam sem esse  barulho. Outros grandes emergentes fazem seu jogo com menos ruído e mais  atenção aos interesses próprios. A parceria entre China e Banco  Mundial, às vésperas de mudança no governo, é um exemplo de pragmatismo,  um fator de fortalecimento da instituição e um aval político à  estratégia chinesa.

Por uma notável coincidência, o  economista-chefe e vice-presidente sênior do Banco, Justin Yifu Lin, é  um ex-membro do Congresso do Povo da China e ex-integrante de vários  comitês governamentais chineses. Nomeado em 2008, Justin Lin é o  primeiro economista-chefe do Banco Mundial originário de um país  emergente.

Também chinês é desde julho de 2011 um dos  vice-diretores-gerentes do FMI, Min Zhu, ex-governador adjunto do Banco  do Povo da China, o banco central. Como Justin Lin, ele também se formou  em seu país, fez cursos de pós-graduação no exterior e é há vários anos  uma figura respeitada e conhecida em fóruns internacionais, pouco  frequentados por figuras brasileiras. Eles estão no Banco e no Fundo  como funcionários selecionados profissionalmente e não como  representantes de seu país, mas sua origem está longe de ser  irrelevante. Um brasileiro, Murilo Portugal, já ocupou posição  semelhante à de Min Zhu na cúpula do FMI, mas autoridades brasileiras  parecem pensar em algo diferente, e mais ideológico, quando defendem a  atribuição de mais postos, no Fundo e no Banco, a pessoas originárias do  mundo em desenvolvimento. O governo chinês é mais discreto, pragmático e  eficiente em relação a essas questões. Dragões podem ser mineiramente  recatados.

.