Ao vencedor… as laranjas

Se no passado o alimento era produzido e consumido localmente, os atuais sistemas de produção e consumo são caracterizados pelo distanciamento entre o local da produção e processamento do local onde se dá o consumo

Decio Zylbersztajn – professor titular da Faculdade de  Economia, Administração e Ciências Contábeis da Universidade de São  Paulo (USP)- Valor Econômico

A notícia de que a “Food and Drug Administration”  (FDA) embargou lotes de suco de laranja de origem brasileira provocou  flutuação nos preços e preocupação generalizada entre produtores e  exportadores. A FDA, agência americana que cuida do controle e registro  de medicamentos e de produtos de defesa vegetal, pode criar problemas  para o sistema agroindustrial da laranja, afetando produtores, indústria  de insumos e exportadores. É inevitável que os consumidores brasileiros  perguntem se o produto aqui vendido é seguro.

O fato isoladamente  é relevante bem como a identificação da sua causa, no sentido de evitar  futuros problemas. Voltemos à origem do conceito de “agribusiness”, que  traz na sua essência a ideia de “coordenação”. O conceito não foi  cunhado para significar a grande agricultura industrial como tem sido  interpretado no Brasil, mas para ressaltar que a agricultura não pode  ser tratada como um setor isolado da indústria de insumos que a precede  ou da indústria de processamento de alimentos que a sucede na cadeia  produtiva.

O funcionamento dos Sistemas Agroindustriais (SAGs) é  complexo, pois envolve agricultores dispersos geograficamente que adotam  tecnologias em geral apontadas pela indústria de insumos. A produção é  processada pela indústria ou poderá ser consumida diretamente sem  processamento, no caso do alimento in natura.

O tema da  coordenação é imperativo e dá o mote para os estudos e pesquisas geradas  nos centros dedicados ao tema em todo o mundo. A pesquisa dos últimos  20 anos converge para fato de que a competitividade dos SAGs é pautada  pela adoção de tecnologias produtivas, ambientalmente compatíveis, e  seguras sob o ponto de vista do consumidor final. Para tanto, a adoção  de mecanismos de coordenação entre produtores e indústria se faz  necessária. A indústria processadora, os agricultores e a indústria de  insumos, quando conseguem aprimorar os mecanismos de coordenação, são  capazes de gerar valor, criando incentivos para a cooperação de longo  prazo, condição necessária para a incorporação de novos mercados.

Se  no passado o alimento era produzido e consumido localmente, os atuais  sistemas de produção e consumo são caracterizados pelo distanciamento  entre o local da produção e processamento do local onde se dá o consumo.  Tal fato gera a necessidade de mecanismos de controle de qualidade e  sanidade dos alimentos bem como de normas legais e estrutura para  efetuar os controles.

O fato que funcionou como o gatilho para a  intensificação do controle sobre os alimentos foi o mal da vaca louca  ocorrido na Europa, que gerou o critério de segurança hoje representado  pelo Global-Gap, servindo de pauta para todos os SAGs que desejam chegar  ao mercado europeu. Nos Estados Unidos, o FDA foi criado no século XIX a  partir da Divisão de Química do Ministério da Agricultura dos Estados  Unidos. Nasceu como uma resposta institucional à necessidade de  controles de sanidade dos alimentos e medicamentos.

Instituições  como o FDA ou seus similares europeus são movidas por razões técnicas e  também por pressões políticas. Estratégias de acesso aos mercados, não  raro, são marcadas por mecanismos não tarifários de proteção aos  produtores locais. De modo pragmático, os SAGs que competem nos mercados  internacionais devem prever situações críticas cujos sinais estão  disponíveis, reorganizando a produção. Um exemplo é a substituição do  uso de moléculas que gerem resíduos banidos dos mercados.

Em suma,  as exigências dos consumidores, sejam elas impostas pelo mercado ou por  mecanismos regulatórios, são fatores indutores de mecanismos refinados  de coordenação nos sistemas de base agrícola. Cabe perguntar como anda a  coordenação na agroindústria citrícola no Brasil.

Eu diria que os  indicadores não são os mais animadores. Os citricultores independentes e  a agroindústria tem vivido momentos cheios de emoção nas últimas  décadas. O tema de maior visibilidade é o conflito distributivo que  ganhou um status crônico, mobilizando o Cade e o Poder Judiciário.

A  tentativa de criar um mecanismo contratual de precificação  (Consecitrus), à luz da experiência do Consecana, tem mostrado uma visão  imperial da indústria que sugere ter ela o modelo para a solução do  problema distributivo. No mínimo, esta é uma visão ingênua, pois os  modelos de sucesso são embasados em negociação de longo prazo e criação  de laços de relacionamento entre agricultores, indústria de insumos e  indústria de processamento.

O exemplo do uso do fungicida que  contém o princípio ativo “carbendazim” apenas acentua a disritmia que  caracteriza o SAG da laranja no Brasil, abrindo o flanco para a perda de  poder competitivo. Os sinais são óbvios. As discussões realizadas entre  o FDA, a Juice Producers Association e a Citrus-BR, em janeiro de 2012  deixaram os agricultores em condição subsidiária na mesa de negociação.

Não  há sinais de que as arestas estejam sendo adequadamente trabalhadas. A  indústria eleva o seu grau de integração vertical, cuja eficiência é  questionável por envolver grandes investimentos em ativos, e os  contratos de longo prazo entre a indústria e produtores perdem a sua  capacidade coordenadora. O ambiente que impera não sugere que ações  geradoras de incentivos para a cooperação estejam à vista.

A  indústria e a agricultura tratam o tema com miopia usual. Se  cooperassem, agricultura e indústria gerariam e protegeriam valor que  poderia ser distribuído entre os setores de modo inteligente. Da maneira  como tratam a cooperação, o sistema agroindustrial da laranja nos faz  lembrar Quincas Borba, de Machado de Assis. As duas tribos estão  famintas e acham que o campo de batatas é suficiente apenas para  alimentar uma delas. Ao vencido o ódio ou compaixão, ao vencedor as  laranjas.

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