2011: um ano que não terminou para a educação

O impasse é simbólico e, por si, educativo

Paulo Castro-Economista, é diretor-presidente do Instituto C&A-Correio Braziliense

O  ano de 2011 chegou ao fim e deixou um sentimento de frustração para  todos os que veem na educação o caminho inevitável para a construção de  um Brasil socialmente justo e democrático. A votação do Projeto de Lei  nº 8.035/2010, o nosso Plano Nacional da Educação (PNE), foi mais uma  vez postergada, deixando em aberto temas decisivos que não podem mais  aguardar. Estamos em atraso em relação ao documento legal que define as  metas para a educação brasileira até 2020.

Mais do que lamentar a  aparente falta de prioridade que a educação ocupa na agenda de setores  do governo, é tempo de ressaltar aspectos que tornam esse PNE um  capítulo à parte na história do país. Nunca houve uma oportunidade tão  clara e decisiva de participação da sociedade nos rumos de seu sistema  de ensino. Há quem demonstre não ter entendido bem esse fato, em uma  espécie de miopia social, por exemplo, creditando o elevado número de  emendas (mais de 3 mil) a mero jogo de interesses sindicais ou  político-partidários.

Em primeiro lugar, é legítimo e democrático  que todos os setores se manifestem e defendam seus interesses. Mas é  preciso ver também que grande parte das emendas foi produzida após  amplos e subsidiados debates em diferentes fóruns, como a Conferência  Nacional da Educação (Conae), em 2010.

A Conae mostrou-se  instância fecunda. Embora seja passível de aprimoramento, foi capaz de  ampliar a voz e o protagonismo de diferentes atores sociais. Dessa  conferência, que reuniu mais de 4,5 mil educadores, nasceu um documento  com o consenso possível, de caráter construtivo e propositivo.

Do  mesmo modo, o PNE deve ir à votação enriquecido em 2012 com as  contribuições do movimento PNE pra Valer!, coordenado pela Campanha  Nacional pelo Direito à Educação, do qual participam instituições de  diferentes segmentos, como a União Nacional dos Dirigentes Municipais  (Undime) e a Associação Nacional de Pesquisadores em Educação (Anped).

A  presença de representantes da sociedade civil nas diferentes fases de  construção e tramitação do PNE é prova de que a educação definitivamente  convoca a atenção dos brasileiros, não mais a reboque de problemas  dramáticos, como filas por matrículas em portas de escola, nem atrás de  longa lista de direitos sonegados pelo Estado, como saúde e segurança. É  tema que se torna cada vez mais o prato do dia, num efeito em cadeia  que só tende a se aprofundar.

Esse dado torna mais assombrosa a  distância entre as demandas sociais na educação e a efetiva prioridade  dedicada na agenda executiva do país. Tanto é assim que, na cobertura da  imprensa, o grande destaque é conferido ao braço de ferro travado sobre  qual deve ser o investimento público do setor em relação ao PIB —  questão de suma importância, pois, pela primeira vez, as metas do PNE  estarão costuradas com fontes de financiamento, assegurando sua  exequibilidade.

O impasse é simbólico e, por si, educativo. Mostra  que, como sociedade, precisamos vencer uma barreira sutil na história  de nossa República: aquela segundo a qual a participação social é  tratada como algo desejável e belo para dar “sensação de democracia”,  mas que não pesa efetivamente nas decisões, principalmente quando elas  implicam disponibilização de recursos financeiros condizentes com as  metas propostas.

O financiamento da educação não pode ser  argumento para tornar a aprovação do PNE tema de gabinetes. Ao  contrário, mais do que nunca é tempo de discutir com a sociedade como  ela espera ver aplicadas as riquezas arrecadadas pelo país. Vamos em  frente. A votação do PNE urge. É preciso reconhecer que a educação  brasileira sofre pelo acúmulo de problemas ao longo de sua história e  que o PNE, que findou em 2010, não cumpriu boa parte do que prometeu.

Para  não repetirmos erros passados, precisamos considerar as instâncias de  participação e controle social como elementos que potencializam tanto a  qualidade do plano quanto sua execução. O texto a ser votado, se não é o  ideal, já está inevitavelmente vitaminado pela atuação das  representações da sociedade civil, uma seta que indica estarmos no  caminho certo para garantir, enfim, o direito básico de educação de  qualidade para todos.

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