Trabalho doméstico no Brasil

Uma mão de obra cada vez mais velha, escolarizada, escassa e, consequentemente, mais cara. O trabalho doméstico passa por um lento processo de transformação, decorrente das mudanças socioeconômicas do país na última década. A tendência estatística já sugere que contar com uma trabalhadora doméstica em casa será um “luxo” no Brasil dentro de alguns anos.

Alexandre Costa NascimentoGazeta do  Povo

Na última década, o número de trabalhadoras  domésticas cresceu em proporção menor que a população, segundo estudo realizado  pelo instituto de pesquisas Data Popular a partir de dados do Instituto  Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Segundo a  pesquisa, o país tem 6 milhões de trabalhadoras, 3% da população, que movimentam  R$ 43 bilhões por ano – cifra equivalente ao Produto Interno Bruto  (PIB) de Curitiba.

O rendimento médio da categoria  cresceu 43,5% acima da inflação entre 2002 e 2011 – a renda média de todos os  trabalhadores subiu 25% –, mas continua abaixo do salário mínimo. As domésticas  com carteira assinada ainda representam apenas 28% da categoria, e ganham em  média R$ 508,17, cerca de 80% do mínimo. As “sem-carteira”, 72% das profissionais, recebem somente R$ 351,43, pouco mais da metade do  piso.

“O trabalho doméstico continua sendo a atividade que mais  emprega mulheres no Brasil, em especial negras e pobres”, aponta a pesquisadora  do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) Luana Simões  Pinheiro. Segundo ela, o Brasil ainda não vive o “sumiço” do trabalho  doméstico, mas já é possível observar um acentuado processo de envelhecimento da  força de trabalho. Na última década, a média de idades das trabalhadoras cresceu  de 35 anos para 39 anos.

“A extinção do trabalho doméstico é um fenômeno  que não está muito distante da gente. Não estão entrando novas trabalhadoras  para repor as que se aposentam. As jovens e meninas de regiões mais pobres têm  tido acesso a escolaridade e vão cada vez mais entrando em outras profissões.  Cai a oferta de mão de obra, mas não a demanda pelo serviço. Em algumas capitais  já podemos perceber o reflexo disso nos salários ou no preço das diárias”, diz a  pesquisadora.

A coordenadora do Programa de Promoção da Igualdade  de Gênero e Raça no Mundo do Trabalho da OIT Brasil,  Márcia Vasconcelos, avalia que a redução das desigualdades sociais que  ocorre no Brasil é mais lenta em relação às domésticas. “O trabalho doméstico  tem invisibilidade, déficit de direitos e desvalorização. Reage de maneira mais  lenta aos progressos verificados no resto da  economia.”

Constituição discrimina a  classe
A discriminação social das  trabalhadoras domésticas encontra amparo na própria Constituição Federal. O  artigo 7º da Carta Magna assegura a todos os trabalhadores brasileiros 34  direitos fundamentais, mas o parágrafo único desse mesmo artigo dá à categoria  dos trabalhadores domésticos somente dez desses direitos. Essa diferenciação  exclui as domésticas de proteções básicas como férias remuneradas, 13º salário,  seguro desemprego, seguro acidente, remuneração por horas extras e limite máximo  de jornada de trabalho.

Ao longo dos anos alguns direitos foram  garantidos com legislação infraconstitucional. E um projeto de emenda  constitucional propõe a exclusão do parágrafo que restringe os direitos da  categoria. “Existe uma resistência da sociedade com o argumento de que a  igualdade de direitos encareceria o trabalho doméstico. É um argumento cheio de  preconceitos, semelhante aos usados pelos escravagistas quando a sociedade  brasileira discutia a abolição no século retrasado”, compara a pesquisadora do Ipea Luana Simões Pinheiro.

Ascensão por meio do  estudo
A evolução social das domésticas vem sendo impulsionada  pela elevação do grau de escolaridade dessas profissionais. O número de  trabalhadoras que chegou ao ensino médio quase dobrou entre 2002 e 2011,  passando de 12,7% para 23,3%. Apesar de níveis ainda baixíssimos, a proporção de  empregadas com curso técnico ou superior cresceu 85%, saltando de 0,7% para  1,3%. Ana Cristina Timóteo Silva foi uma das  trabalhadoras que teve a oportunidade de trocar a vassoura pelos livros e,  posteriormente, pelas seringas.

Ela faz um curso técnico de enfermagem e hoje  trabalha no Hospital Evangélico, em Curitiba. “Ninguém escolhe ser doméstica por  sonho. Comecei a trabalhar ainda jovem, com 17 anos, e tive que abandonar os  estudos. Depois me casei, tive filhos e fui adiando o sonho de voltar a  estudar”, conta Ana Cristina, hoje com 42  anos.

“Trabalhei 13 anos com a mesma família, com carteira assinada, e  eles me ajudaram a estudar para ter uma nova profissão. Eles me ajudaram a pagar  metade do curso”, diz. Segundo ela, o sonho de buscar uma nova qualificação ia  além da questão financeira. “Existe a vontade de crescer profissionalmente e  melhorar de vida”, avalia.

Mesmo trabalhando no hospital, Ana  Cristina resolveu voltar a trabalhar como diarista há seis meses – justamente para a família que a ajudou com parte do financiamento do curso.  Segundo ela, a soma das duas rendas representa o triplo do que ganhava apenas  como doméstica. “Hoje temos casa própria, um carro financiado, computador e  posso pagar dar à minha filha um estudo melhor”, conta. No Natal, a filha ganhou  um iPad. “Posso dar a ela coisas que jamais tive ou imaginaria ter. A grande  mudança foi possível através do estudo”, diz Ana.

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