No Brasil não existe direita?

Intelectuais existem em ambos os partidos. Só que a social-democracia se traduz pela adesão de sindicatos e o PSDB ainda não conquistou nenhum

João Mellão Neto -Jornalista,  foi deputado, secretário e ministro de Estado. E-mail:  [email protected]. Artigos anteriores: www.blogdomellao.com.br– Estadão

PT e PSDB mantêm uma relação que só Freud  explica. Ambos foram dissidências do antigo MDB e nasceram do mesmo  ventre: o pensamento socialista. Mas só viveram juntos até meados da  década de 1980. A partir daí separaram os trapos e cada um foi cuidar da  própria vida.

Intelectuais existem em ambos os partidos. Só que a  social-democracia se traduz pela adesão de sindicatos e o PSDB ainda  não conquistou nenhum. Os tucanos acreditam contar com a nata da  inteligência brasileira. Acham que seus adversários são rudes e pouco  educados. Os petistas já perceberam que seus opositores só conhecem a  política de punhos de renda e abusa disso. Praticam a política do  pragmatismo e a do poder no seu sentido mais realista. O PT vê no PSDB  um inimigo a ser combatido. Já no PSDB o PT é tratado como irmão caçula.  Todas as suas diabruras são perdoadas, todas as suas malcriações são  relevadas como “excessos da juventude”. Acontece que o PT não é um  adolescente. Nasceu em 1980, sendo, portanto, oito anos mais velho que  seu “irmão mais velho”.

O PSDB alcançou a Presidência em apenas  seis anos. O PT ficou no sereno por mais de duas décadas. E perdeu três  eleições nacionais até entender e depurar os seus defeitos. Fala-se dos  tucanos que eles não sabem fazer oposição. É claro que não. Eles nunca a  fizeram.

Vamos rememorar os fatos. Mário Covas perdeu a eleição  presidencial em 1989, mas logo a seguir os tucanos se transformaram na  noiva mais cobiçada da corte. O presidente Fernando Collor fez de tudo  para atraí-los ao seu leito e Itamar Franco, seu sucessor, concedeu-lhes  vários ministérios. Eu residia em Brasília nessa época e acompanhei  todos esses fatos de perto.

O senador Fernando Henrique Cardoso  ganhou de presente o posto que mais desejara: o de ministro das Relações  Exteriores. É um cargo para quem não pretende mais fazer política na  vida, uma experiência muito gratificante: viaja-se bastante, convive-se  com gente do mais alto nível, trabalha-se no ministério mais bonito de  toda a Esplanada. Até aí, tudo de bom. O problema é que o único cargo de  livre provimento de que dispõe é o de secretário particular, todos os  demais são de carreira. Mas, ainda assim, era tudo o que FHC mais  queria.

Uma noite foi acordado, em Nova York, por um telefonema  urgente do presidente Itamar. Após três nomeações frustradas para a  Fazenda, o nome mais respeitável disponível era o do chanceler Cardoso,  que admitia publicamente quase nada saber de economia. Mesmo a  contragosto, assumiu a pasta e, assessorado por bons economistas, bancou  o Plano Real, que lhe valeria a vitória em duas eleições presidenciais.

O  sucesso do “jeito tucano de governar” era tanto que acabou inspirando o  então ministro das Comunicações, Sérgio Motta, a vaticinar que os  social-democratas permaneceriam no poder por pelo menos 20 anos. Mas eis  que, já em 2002, foram apeados do poder pelas urnas. A hora e a vez  eram de Lula. O Brasil estava ávido por experimentar o modo petista de  exercer o poder.

O presidente Lula demonstrou-se um  prestidigitador. O amplo arco de apoio ia do PP, partido que herdara a  massa falida da ditadura, até o PCdoB, criado para confrontar o PCB, que  seus membros achavam ser por demais moderado.

Surgiu, então, um  problema: como o forte do governo anterior fora a economia, o PT haveria  de se destacar em outra área, a social. Para tanto o PT contava com uma  arma secreta: o famigerado programa Fome Zero. Criou-se até um  ministério para implantá-lo, que seria ocupado por ninguém menos que seu  idealizador.

A expressão “fome zero” foi um sucesso  internacional. Muita gente se propôs a fazer doações ao programa. O  governo adiou mais uma vez a compra de novos aviões para a Força Aérea  Brasileira e alegou que o fazia para investir no programa de banimento  da fome. Demagógica ou não, o fato é que a ideia pegou.

Só que  havia um detalhe: ninguém fazia a menor ideia de como fazer chegar os  alimentos aos desvalidos. Decidiu-se, então, que os víveres seriam  adquiridos diretamente pelos beneficiários. Depois era só eles  apresentarem a nota fiscal às autoridades competentes que o governo  ressarciria todas as despesas. Ora, nota fiscal nos grandes centros é  coisa comum. Mas, e no interior do Nordeste, onde as pessoas nem sequer  sabem o que é isso? O barco começou a fazer água por todos os lados. E  se optou por uma solução mais simples: bastava o dono do empório  rabiscar num papel um indicativo de despesas alimentares para que a  exigência fosse cumprida. Não funcionou.

Aí surgiu a ideia de  unificar todos os programas sociais então existentes num só, aproveitar  os cadastros que haviam sido elaborados e batizar tudo com um novo nome.  Foi assim que nasceu o Bolsa-Família, um sucesso de público, mas não de  crítica. E dessa forma ficaram divididos os louvores: FHC destacou-se  na economia, Lula brilhou no social e Dilma faz um pouco de cada coisa: é  autoritária como um tucano e conversa com Fidel Castro como um petista.

Não  há, todavia, nada mais parecido com um tucano do que um petista: ambos  os partidos contam com excelentes quadros administrativos (os mesmos,  aliás), governam com alguma eficiência e se entendem como de  centro-esquerda. Afinal, nasceram gêmeos.

Mas, e quanto à direita?  Ela não existe ao sul do Equador? Será que no Brasil não existe ninguém  que defenda princípios de direita, seja a liberal, seja a conservadora?  O pensamento de direita tem bases sólidas e não implica necessariamente  complacência com ditaduras ou regimes de exceção. Entre outros  princípios, prega o respeito aos direitos humanos, o sagrado direito de  tomar decisões e a responsabilidade individual.

Todos pelo social não dá, pessoal. Alguém vai ter de subir pelo elevador de serviço.

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