Na crença ancestral, uma forte raiz, fincada história adentro, alimentando arquétipos e gerando sanidade mental, sobre a inconstância dos valores e a hipocrisia dos sistemas.
Meus avós devotos de Santo Antonio, Padre Cícero e Nossa Senhora da Conceição, me deixaram a plataforma sobre a qual a fé se espraia e ama todas as expressões de saúde ou enfermidade espiritual, na busca da Vida plena, fluida e iluminada.
Nas viagens ao povoado Bom Despacho, nos rincões ladeirados de Passo de Camaragibe, para rezar à luz de candeeiros e lampiões, na divisa tênue entre a igreja e os túmulos, pois o cemitério, como que buscando aproximar os seus fieis mortos de Deus, se estendia como um quintal daquela igreja simples, e também rezava com os devotos.
Às procissões de 08 de dezembro pelas ruas antigas do Passo, onde ficava sempre o meu desejo vão de continuar noite adentro pelos festejos da padroeira. Mas o único objetivo era reverenciar o andor que portava a santa amada, entre flores e perfumes, permitindo alguns toques, como se purificasse os torpes corações que a buscavam.
Cresci assim. Na louvação do Bom Jesus da Matriz! Na visitação a São Sebastião, em Porto Calvo, no mês de janeiro.
Hoje posso preparar meus olhos para contemplar as flores lançadas ao mar, na certeza de que Yemanjá as recebe, revertendo em bençãos suaves à terra, as declarações de amor que lhe são feitas em público!
Nas saias rodadas, na ginga, na cantiga que meu ouvidos não traduzem, nos ecos de além-mar do passado de escravidão, violência, morte e sublimação…vejo esse amor puro.
Nessa energia incontrolável designada em duas letrinhas, homens e mulheres rompem algemas, vencem chicotes e erguem as armas da luta! Luta pela liberdade. Sem liberdade não há vida.
Guerreiros de uma fé insubordinada. Corações gigantes na força de um amor tornado marginal, deitando corpos e presentes nas águas salgadas, de tantas lágrimas…louvam Yemanjá, caminham com Nossa Senhora da Conceição. Nosso povo é esse, é assim.
Corações abertos e rasgados se oferecem à cura, ao acalanto das divindades. Cavando fundo os sulcos da solidariedade na terra dura dos sistemas opressores e castas eugenistas. Me banho e caminho com essa gente, na anônima veste que nos iguala na mesma condição de espíritos caminhantes, numa terra de passagens e passantes.



