As cidades e o sertão

Certamente que atos dos nossos avoengos não nos comprometem - a responsabilidade por eles é puramente individual e não se transmite às futuras gerações

Luiz Werneck Vianna -professor-pesquisador da PUC-Rio-O Estado de S. Paulo

O diabo,  ouve-se dizer, mora nos detalhes. A nomeação para o Ministério das  Cidades do deputado federal pela Paraíba Aguinaldo Ribeiro (PP) não se  pode perder no noticiário dos faits divers da política nacional, nem  tanto pela falta de credenciais do indicado para exercer os papéis na  direção de uma agência estratégica como essa – cabe-lhe, como se sabe,  administrar o urbano, dimensão crucial da vida contemporânea -, menos  ainda por já ter respondido em seu Estado a processos por improbidade  administrativa, mas, sobretudo, pela sua linhagem política, a revelar de  modo contundente o que há de reacionário na forma de imposição do nosso  processo de modernização.

Certamente que atos dos nossos avoengos  não nos comprometem – a responsabilidade por eles é puramente  individual e não se transmite às futuras gerações. Contudo a sociologia  já é uma disciplina científica estabelecida e há tempos fixou como  critério na investigação social operações de escrutínio dos dados  referentes às origens sociais dos atores sob sua observação. Na história  recente da sociologia provavelmente ninguém melhor que Pierre Bourdieu,  hoje no panteão da disciplina como um dos seus maiores, contribuiu para  esclarecer o lugar do chamado capital social, conceito elaborado por  ele, na produção e reprodução da hierarquia social numa dada sociedade.

Na  sociologia brasileira, Sergio Miceli, ex-discípulo de Bourdieu, Leôncio  Martins Rodrigues e Jessé de Souza, entre tantos autores relevantes, o  primeiro na sociologia da cultura, os segundos na sociologia política,  têm demonstrado em seus influentes trabalhos o papel explicativo, se bem  que não determinante, da origem social a fim de dotar, ou de privar, os  indivíduos do capital social que lhes vai demarcar, positiva ou  negativamente, seus lugares em termos de poder ou de prestígio social.

O  caso do deputado Aguinaldo Ribeiro, novo ministro guindado ao vértice  de nossas instituições republicanas, é exemplar não por sua trajetória  pessoal, mas pelo significado, digamos, macroestrutural de que se  investe. Nele, por inteiro, se põe em evidência o segredo de Polichinelo  da modernização brasileira, que, desde sempre, de Vargas a JK, passando  pelo regime militar e que ora se renova, conquanto de modo velado, nos  governos Lula e Dilma Rousseff, se radica no pacto implícito – quando  necessário, explicitado – entre as elites modernas e as tradicionais, no  caso em tela, dos seus setores vinculados social e politicamente à  história do exclusivo da terra e ao sistema de controle autocrático que  ele impôs no hinterland.

Com efeito, o deputado Aguinaldo Ribeiro é  neto – como registra oportuna matéria do jornalista Raphael Di Cunto  (Valor, 3/2) – do tristemente famoso usineiro Aguinaldo Velloso Borges,  chefe de baraço e cutelo do agreste paraibano, acusado de mandar matar,  em 1962, João Pedro Teixeira, uma das maiores lideranças dos  trabalhadores do campo, então à frente da Liga Camponesa de Sapé, quando  se destacou nacionalmente pela firmeza na defesa dos direitos da sua  categoria social. Em 1983, o mesmo usineiro Aguinaldo foi, mais uma vez,  apontado como responsável por mais um crime político, pois era disso  que se tratava, com o assassinato sob encomenda de Maria Margarida  Alves, símbolo das lutas feministas no País, cultuada na Marcha das  Margaridas, que desde 2000, anualmente, desfila em avenidas de Brasília.

A  saga de João Pedro Teixeira e de sua família foi objeto de um  documentário, Cabra Marcado Para Morrer, obra-prima de Eduardo Coutinho,  na época um jovem cineasta do Centro Popular de Cultura da União  Nacional dos Estudantes (UNE), surpreendido, em meio à filmagem no  sertão, pelo golpe de 1964, salvos, depois de muita correria, ele e o  filme, que esperou quase 20 anos para ser finalizado.

A matéria do  jornalista Di Cunto informa ainda que a mãe do deputado Aguinaldo é  prefeita de Pilar, pequena cidade paraibana, e Fábio Fabrini, repórter  do Estado, em circunstanciada notícia (4/2) sobre a projeção na política  regional da rede familiar do novo ministro, revela que sua irmã, hoje  deputada estadual, é candidata à prefeitura da importante cidade de  Campina Grande, sem contar outros membros da sua parentela em posições  de comando na vida local e até na prestigiosa Embrapa, ponta de lança da  moderna agricultura brasileira.

Está aí a mais perfeita tradução  da quasímoda articulação, no processo de modernização capitalista do  País, entre o moderno e o atraso, ilustração viva do ensaio de José de  Souza Martins A Aliança entre Capital e Propriedade da Terra: a Aliança  do Atraso (in A Política do Brasil Lúmpen e Místico, São Paulo, Editora  Contexto, 2011) e que se vem atualizando por meio da conversão do imenso  estoque de capital social, econômico e político do latifúndio  tradicional, que se processa no circuito da política e mediante  favorecimento da ação estatal, em que seus herdeiros se reciclam para o  exercício de papéis modernos. Para quem é renitente em não ver, este é o  lado obscuro do nosso presidencialismo de coalizão, via escusa em que  os porões da nossa História se maquiam e mudam para continuarem em suas  posições de mando.

De fato, num país com as heterogeneidades  sociais e regionais que nos são características, o andamento para a  conquista do moderno nas relações sociais e políticas, num contexto de  democracia institucionalizada, não pode deixar de consultar sua História  e as forças da sua tradição, a fim de ajustar, interpretativamente, seu  movimento a elas. Mas isso não se pode confundir com a reanimação –  como a que acaba de ocorrer -, sem princípios e em nome de razões  instrumentais, procedida por políticas de Estado, das sedimentações  socialmente recessivas que recebemos do passado, com as quais é preciso  romper.

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