A política do salário mínimo

Sei que é um tema impopular e imagino que a maioria dos leitores do jornal seja contra uma reforma

Fábio Giambiagi – O Globo

Ao longo de 2012 tentarei passar para os leitores  as ideias que tenho defendido nos últimos anos em defesa da realização  de uma reforma da Previdência. Embora eu já tenha tratado do tema do salário mínimo, é inevitável retornar ao ponto no contexto do tema em debate. O  filósofo Francis Bacon disse certa vez que “se começarmos com certezas,  acabaremos com dúvidas; mas, se começarmos com dúvidas, e formos  pacientes, acabaremos com certezas”. Minha intenção com esta série de  artigos é mostrar aos leitores as razões que me levam a defender a  necessidade da citada reforma. Sei que é um tema impopular e imagino  que a maioria dos leitores do jornal seja contra uma reforma. É  justamente isso que torna o desafio interessante para o colunista:  escrever para quem discorda de nós é sempre mais difícil do que escrever  para quem partilha de nossas ideias.

Vamos aos argumentos, então. Um  esclarecimento, inicial, porém: sou a favor da política de aumentos  reais do salário-mínimo. Discordo, porém, da conveniência de estender  tais aumentos ao piso previdenciário. E o melhor argumento é o que  está acontecendo em 2012: todas as categorias profissionais estão  ganhando, ao chegar a data-base, na melhor das hipóteses, aumentos reais  de no máximo 2 %, quando muito.

E há trabalhadores que sequer estão  conseguindo a reposição da inflação. Não consigo enxergar a justiça  social que faz com que, nesse contexto, aposentados que recebem SM — em  muitos casos, sem ter acumulado contribui durante 35 anos associadas a  esse salário de contribuição, como é notoriamente o caso dos benefícios  rurais — estejam recebendo em 2012 um incremento real das suas  remunerações da ordem de 8%. Acho isso uma distorção. O que fazer?  Voltarei a isto, mas antes vamos aos números. Nos últimos 15 anos, a  despesa do Governo com benefícios previdenciários e assistenciais de  exatamente um salário-mínimo aumentou mais de 2% do PIB, passando de  1,4% do PIB em 1997 para uma estimativa de 3,5% do PIB em 2012.

O  primeiro aspecto marcante desse processo é a sua intensidade: para se  ter uma ideia, todo o investimento do Governo Federal é da ordem de 1%  do PIB. Isto é, só a variação do gasto com aposentadorias, pensões e  benefícios assistenciais de um SM foi equivalente a duas vezes todo o  montante do que o país gasta por ano com investimentos. O segundo  elemento marcante do processo é a sua inutilidade no combate à pobreza  extrema. Se o país tivesse multiplicado por 2,5 vezes o que gasta com o  benefício previdenciário e assistencial mínimo e com isso eliminado a  miséria, todos concordaríamos com a escolha de prioridades.

Recentemente, um participante do debate manifestou- se nos seguintes  termos: “O aumento do salário mínimo é o tipo de despesa que a história  recente mostrou ser acertadíssima, pois ajuda a resgatar nossa  vergonhosa dívida social.” O Brasil é um país curioso, pois muitas vezes  afirmações peremptórias são feitas como se estivessem claramente  apoiadas em fatos, quando na verdade estão divorciadas da realidade. Aquela  afirmação está simplesmente errada. Pior: completamente errada. E aqui  cito dados oficiais: entre os beneficiários da assistência e da  Previdência Social que ganham um SM, apenas 1,1% está entre os 10 % mais  pobres do país. Mais ainda: entre os beneficiários que ganham um SM,  nada menos que 66 % — o leitor leu certo: dois terços! — estão  localizados na faixa de renda dos 50% superiores na escala de  distribuição de renda (“In forme de Previdência Social”, Ministério da  Previdência, agosto de 2011). Em outras palavras, quando o SM aumenta, a  dívida social continua praticamente intacta. Gastamos rios de dinheiro —  para nada.

O que fazer? A saída passa pela desvinculação do piso  previdenciário em relação ao SM. O piso acompanharia a inflação — e o SM  aumentaria acima contribui desta. Não vejo espaço, porém,  realisticamente, para avançar nesta discussão na década atual. A solução  é manter a política atual, mas com maior moderação — por exemplo,  aumentando o SM não 8%, como em 2012, e sim 1% a.a. Cedo ou tarde, a  regra hoje vigente terá que ser repensada.

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