Na terra de Marta, água em carro-pipa vira ouro

Em Dois Riachos não chove desde outubro do ano passado. Em dezembro, os moradores passaram o Natal e o Ano Novo sem água nas torneiras e chuveiros

Odilon Rios
reporternordeste.com.br

Trinta e três cidades de Alagoas se preparam para, nos próximos dias, pedirem à Defesa Civil que decrete situação de emergência, por causa da seca. Em algumas delas, as torneiras não correm água há um mês.

Na terra da jogadora Marta- Dois Riachos- a 245 quilômetros de Maceió- a falta de água preocupa os moradores. Quem vive na zona rural tem de usar carros de boi para levar e trazer água de alguma cisterna. Nesta hora, vale a solidariedade.

– Na casa da minha tia tem uma cisterna. Quando acaba água aqui, vamos para lá , diz a professora Irla Vieira.

Em Dois Riachos não chove desde outubro do ano passado. Em dezembro, os moradores passaram o Natal e o Ano Novo sem água nas torneiras e chuveiros. O consumo voltou ao normal em 1 de janeiro, mas há uma semana não existe água.

Em terra seca, a água vira ouro. Um caminhão pipa cheio custa R$ 80,00; quem quer economizar, paga uma pessoa que traz água de uma barragem- entre R$ 25 e R$ 30. Só que a água da barragem serve apenas para lavar roupa e tomar banho.

Em Carneiros- a 143 quilômetros de Maceió- as pessoas esperam por chuva em abril. A falta de água é entre 15 e 20 dias.

– Quando tem, é racionado. Tem de dia, mas não à noite, disse a professora Dázia Maria dos Santos Pereira.

A zona rural de Dois Riachos e Carneiros sofre mais porque os dois municípios sobrevivem de duas rendas: o funcionalismo público, as aposentadorias, o Bolsa Família ou os trocados conseguidos na casa dos prefeitos- para comprar o gás de cozinha ou garantir a cesta básica.

As cidades não têm empresas. Quem não é funcionário público é considerado “pobre”. Os “ricos” ganham um salário mínimo.

Em Traipu, a situação também é crítica. O segundo município mais pobre do Brasil está à beira do rio São Francisco, mas enfrenta os efeitos da seca porque não há água encanada.

Ano passado, a cidade foi alvo da terceira operação da Polícia Federal. Dezenove pessoas foram presas- entre elas o prefeito, Marcos Santos (PTB). Segundo a PF, eles usaram verba da merenda escolar para comprar uisque, ração de cachorro e compras de supermercados.

Dados da Associação dos Municípios (AMA) indicam que, das 38 cidades de Alagoas localizadas na região da seca, 33 estão em situação de emergência- quase um milhão de alagoanos. 1/4 das cidades no Estado enfrenta a estiagem.

Mas, segundo a Defesa Civil, nenhuma cidade oficializou a situação. Os documentos são encaminhados a Defesa Civil Estadual, que analisa e tira fotos dos lugares onde a população sofre a estiagem, os decretos são publicados no Diário Oficial do Estado- com assinatura do governador- e remetidos a Defesa Civil Nacional para que o Exército assuma a Operação Carro Pipa- por exemplo.

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