Quando era criança, tomava muito cuidado ao chupar caju, muitas vezes colhidos do pé, esbanjando doçura ou ranço…pois a nódoa era pra sempre! Ai das minhas roupas manchadas…carregariam uma parte escurecida, ainda que fosse em lugar oculto. Sabia que a mancha estava lá.
Minha infância e juventude nos corredores das amizades e inimizades políticas, me levaram a construir lutas singulares, tendo Matriz de Camaragibe como cenário pseudo-belo, engolido pelo verde da cana que oprimia a luta da pobreza, banhado pelas águas infectadas do Camaragibe, “bebedor de fossas” e outras ignomínias que o povo joga nos esgotos.
Tinha algo ali que não era bonito. Mas eu não sabia explicar.
Aproveitei as boninas coloridas, quando elas enfeitavam os canteiros da praça Bom Jesus. Brinquei no coreto, pulei dos bancos, subi nas árvores, corri para casa suada e feliz em busca do banho, da família e da cama, mas o sonho, era sempre poder ir para bem longe de lá. Havia uma nota triste em meu pressentimento juvenil, mas eu não sabia explicar…
Quando mãe, vi meus filhos passearem pelas ruas que acompanharam meus próprios passos.
Brincadeiras, amizades e folias. Mas, em mim havia algo a cismar…Olhava ao longe a cultura perversa versada na política, oprimindo, retirando a seiva. O povo entre si competindo, acatando a pobreza moral que se impunha. Apenas os bravos resistiram!
Quando em agosto de 2007 meu filho de apenas 12 anos foi torturado por agentes de segurança pública daquela cidade, por causa de uma mísera pedra que bateu no carro da guarda, tendo o chefe da mesma como primeiro autor da cena infeliz…o prefeito era Marquinhos.
O mesmo que havia sido preso na Operação Gabiru por desvio de verbas da merenda escolar das criancinhas pobres.
O mesmo que o premiou José Petrúcio (o Peruca) em breves dias com a alcunha de Secretário de Segurança, após cometer a atrocidade que marcou os dias de meu filho Alexystaine e os meus, com a certeza da injustiça e impunidade.
Lamentei a recondução de Marquinhos à prefeitura da cidade, que representa para mim o cenário do martírio que atropelou a adolescência de meu menino e dizimou sua juventude em flor.
Hoje sei porque Matriz de Camaragibe não é uma cidade bonita.
Sei que a injustiça prospera como a pobreza material ao seu redor, que os poderes omissos e corporativos premiam criminosos. Que o povo elege e reelege os próprios algozes.
Assim como a nódoa do caju que mancha a roupa, os atos espúrios deixam seu rótulo sobre o nome de quem os pratica.
Marquinhos é um símbolo dessa injustiça que Alexystaine experimentou em sua curta jornada terrena, e os poderes ali constituídos e imbuídos de corporativismo caminham parceiros de tudo o que gera a dor e a morte.
Pelos que amo mantenho a lembrança das boninas, como um escudo a proteger lindas memórias!
As tardes à sombra das árvores e as compras felizes de panelas de barro na feira para brincar de cozinhado, conservo como uma relíquia intocável!
Mas diante do martírio de Alexystaine, o segredo me foi revelado.






Respostas de 4
Nossa Ana, você foi fantástica,o texto transmite uma verdadeira experiencia real e que podemos refletir para outras cidades.Infelizmente o nosso povo além de esqucido parece gostar do mundinho de massacre.Se adaptam à situação, ou melhor; adpitados a este sistema e é a estes que ordenam o sistema que o povo continua dando poderes. Nos dizem que é preciso escolher o menos ruim.Se você não votar em alguém perde o voto.O que é isso?Nos chamam de idiotas na nossa cara e não estamos nem aí.Se votamos no menos ruim,é ruim do mesmo jeito.Isto é uma desculpa para continuarmos dando poder a estas virboras que são eleitos e reeleitos.Eis o quadro politico do Brasil.
Claudinha, a cidade tem a cor e o sabor que damos a ela pelas vivências que tivemos. Certamente, as experiências de violência, reforçam o sentimento de dor que escorre como sangue em suas palavras. É sempre doloroso pensar que um lugar, pessoa e circunstâncias que foram tão prazerosas estão hoje associados a amargas lembranças… a injustiça revolta, ao mesmo tempo que colabora para que outros jovens sejam sacrificados… Mas há a vida e a luta continua. Um forte abraço!!
Claudia, penso muitas vezes que existe no mundo pessoas que não conseguem mais tirar a máscara de um teatro que não existe mais.Por que a historia que antes era imaginará se tornou realidade. Assim vejo a maioria das pessoas de matriz, como o fantasma da opera, não conseguem usar mais o belo, o justo e verdadeiro, para serem melhores, mas tornaram-se escravas da mediocridade da insensatez e da propria incapacidade de conquista do bem comum. LAMENTAVÉL!
Minha querida Ana voce continua sendo este simbolo de resistência e consciência critica diante da realidade nordestina.Que Deus continua iluminando para profetizar sem MEDO!