Há uma campanha eleitoral e muita lama, no meio da rua, e não apenas a pedra do poeta Carlos Drummond de Andrade. Os três principais candidatos à Prefeitura de Maceió investem em áreas da periferia, sujam os pés na lama misturada a esgoto e lixo para mostrar seus trunfos, uns contra os outros.
O deputado federal Rui Palmeira (PSDB) mostra que não é o candidato das elites e sua campanha vai ganhando sofisticação- com direito a mini-trio elétrico.
Já o deputado estadual Jeferson Morais (DEM) tenta convencer que não é uma versão mais moderna do prefeito Cícero Almeida (PP). Morais é mais conhecido pela apresentação do programa Fique Alerta, na TV Pajuçara (pertencente à Rui Palmeira) que seu mandato parlamentar. Ele é jornalista.
O ex-governador Ronaldo Lessa (PDT) se apega ao prefeito de Maceió, que puxa a campanha e aposta em rostos conhecidos. São os apoios de Lessa: os deputados estaduais Flávia Cavalcante (PMDB), Judson Cabral (PT) e Ronaldo Medeiros (PT); e o deputado federal Renan Filho (PMDB).
A tão esperada presença dos senadores Fernando Collor (PTB) e Renan Calheiros (PMDB) na primeira caminhada de Lessa não aconteceu. E ela começou na quarta-feira, na Grota do Cigano e terminou no Jacintinho.
Segundo o prefeito Cícero Almeida, foi a partir daquele local que ele ganhou a votação para vereador, deputado estadual e prefeito.
“O outro lado me conhece, sabe do que sou capaz. Eu quero é mostrar ao povo a minha força, minha coragem, experiência, e com o apoio do Cícero e novas adesões que a gente está tendo estamos mais fortes, mais capazes para administrar Maceió, resolver os problemas que temos”, disse Lessa.
A primeira pesquisa, registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE), foi feita pelo Gazeta Pesquisa (Gape), na semana passada. Lessa tem o maior índice de rejeição, seguido por Jeferson Morais. São 22% e 11%, respectivamente.
Pesquisa preocupa? “Não, vamos ter a primeira. Graças a Deus. Só vimos os outros fazerem, vamos ter a primeira”, respondeu Lessa.
Ao subir as ladeiras da Grota do Cigano, pelo menos um ovo e uma pedra foram jogados em direção a Lessa. O ovo atingiu um assessor; a pedra não feriu ninguém.
PEN não preocupa, diz Almeida
O prefeito Cícero Almeida enxergou uma pedra no meio do caminho: era o senador Benedito de Lira (PP). Reclamou da falta de poder no PP, temia a perda do mandato na Prefeitura. Saiu da legenda e migrou para o PEN.
O deputado federal João Caldas (PEN) cobrou fidelidade do prefeito: voto em Rui Palmeira.
O pedido- quase uma ordem- era uma pedra. Mas, foi tirada do meio do caminho. Cícero Almeida encarou o parlamentar federal, vestiu a farda da campanha de Ronaldo Lessa, gravou a jingle da disputa lessista.
Na quarta-feira, 25, puxou a comissão de frente da campanha. Dominou o microfone, subiu em uma das kombis que sofria ao enfrentar a esburacada ladeira da Grota do Cigano. E, em meio ao cheiro podre de um dos canais que recebe esgoto das casas, Almeida entoava a canção que dá ritmo à campanha de Lessa.
Preocupação com João Caldas? “Não me preocupa. Não tenho nada contra o João Caldas e ele não tem nada contra mim. Ele tem os interesses dele e eu tenho os meus. Com o PEN, a informação que eu tenho é que o presidente é ele, mas sou subordinado ao presidente nacional e terei com o João Caldas a máxima cordialidade e respeito. Temos oficialmente o documento que oficializa o apoio à candidatura do Ronaldo”.
Cícero Almeida era orientado, por assessores- nos ouvidos- que não atacasse ninguém.
E os apoios de Lessa ajudavam na empreitada: inflar o ex-governador.
“A campanha está boa, estamos na rua, a rejeição não preocupa. O [José] Serra [candidato a prefeito de São Paulo] tem um índice de rejeição de 37% e vai ganhar a eleição”, diagnostica Renan Filho.
“O Jeferson Morais tem uma tendência: a de cair nas pesquisas. Porque ele não está com a imagem dele na televisão e isso favorece o Ronaldo”, disse Judson Cabral.
Jeferson Morais: Cícero Almeida 2?
Na terça-feira, no Canaã, a imagem da campanha de Jeferson Morais parecia dizer o contrário. Bandeiras, carros de som, carros de luxo e populares estacionados à espera do apresentador de TV e deputado estadual na praça principal do Canaã.
O jornalista coloca, em prática, a seguinte estratégia: em nenhum momento cita o governador TeotonioVilela Filho (PSDB). O vice governador José Thomáz Nonô (DEM) não aparece na campanha.
A proposta: desapegar o nome dele ao do Palácio República dos Palmares. Apesar do Governo citar Morais como um de seus candidatos.
Ele renega o título de “Cícero Almeida 2”.
“Como vou provar que não sou um Cícero Almeida 2? Erros não podem ser repetidos de forma alguma. Isso para mim não é novidade. Na TV, recebíamos críticas. Estou constatando in loco”, disse Morais.
A entrevista foi no Canaã- mais próximo do Ouro Preto. Todas as ruas estavam encharcadas pela lama. O esgoto corria das casas. A chuva ameaça cair. Bastavam alguns pingos para suspender as andanças, os beijos, os abraços apertados, o conhecido clima de campanha- tão raro que só é visto de dois em dois anos.
“Você não pode asfaltar a principal e deixar as outras vias. Na minha avaliação, todas são importantes. Tem que asfaltar a principal e calçar as transversais. A principal está asfaltada. As outras, lama. Este tipo de erro não pode se repetir”, disse Morais.
Ele evitava os ataques ao prefeito Cícero Almeida.
Sem nenhum cacique, Jeferson Morais tem apoios discretos. Por exemplo: na caminhada, havia adesivos do vereador Oscar de Melo (PP), companheiro de profissão e da TV Pajuçara, em alguns carros, ao lado da propaganda eleitoral do jornalista.
“O Oscar está vindo aí? Sou fã dele”, disse uma mulher.
Oscar de Melo apoia a campanha de Rui Palmeira. Estava a cinco quilômetros do Canaã- no Parque da Árvores- também enfrentando a lama, o esgoto a céu aberto, o mato dominando a rua e os postes com luzes queimadas. Iluminação só do mini-trio elétrico, apinhado de mulheres fantasiadas.
Rui Palmeira: “Prefeitura deixou a desejar”
E Rui Palmeira, na mesma terça-feira (24) era quem dominava o cenário, no Parque das Árvores, próximo ao Benedito Bentes. Uma campanha muito maior, mais cara. Na semana passada, ele esteve no Canaã. Uma dona de casa disse, comparando o tamanho das duas caminhadas.
“Muito maior a do Rui que a do Jeferson. Bota três vezes mais tamanho”, disse a moradora.
No Parque das Árvores, modelos masculinos e femininos para cantar o jingle do homem que diz trazer a “Nova Maceió”. Um mini-trio elétrico, muitos fogos de artifício. Remakes de beijos, abraços, pose para fotos- o clássico das campanhas.
No meio da rua, a tentativa de popularizar a campanha: Rui é tratado, pela oposição, como o candidato das elites. “Um mito”, na opinião do deputado federal:
“[Estou] andando, fazendo o que eu já fazia, andando nos bairros que eu já visitei, conhecendo a problemática de alguns bairros que eu já vi várias vezes, como aqui no Parque das Árvores. Acho que a minha votação na eleição passada já diz que eu fui o mais votado no Benedito Bentes, Jacintinho, no Tabuleiro, no Vergel, então isso é um mito. Nossa caminhada vai mostrar a receptividade, o calor com o qual as pessoas nos recebem. Isso derruba este mito”, disse.
Ataques ao prefeito Cícero Almeida? Rui segue a orientação dos marqueteiros: nada de arranhar a imagem de Almeida.
Perguntado sobre o que acha de um prefeito que diz ter feito muita coisa e ele, Rui, pisar em uma rua de lama no Parque das Árvores, o parlamentar federal despista.
“Dá mais garra para fazer. A Prefeitura deixou de fazer muita coisa importante, eu diria sobretudo no cuidado com as pessoas, na área da assistência social, saúde, a Prefeitura deixou a desejar”.









