Algas viram analgésico e alimento

Vanessa Furtado- Correio da Paraíba

A descoberta de que a alga marinha ‘Caulerpa racemosa’, muito comum no Litoral paraibano, tem propriedades anti-inflamatórias e contra a dor é um marco por realizar as primeiras pesquisas químicas e farmacológicas de organismos marinhos no país para o tratamento de diversas doenças. No próximo mês, a patente definitiva deverá sair.

A substância é resultante das pesquisas do projeto ‘Rede Interinstitucional de Algas Bentônicas’, coordenado pelo professor e pesquisado José Maria Barbosa Filho. “Com uma costa litorânea de oito mil quilômetros, só agora o Brasil está começando a descobrir a quantidade de riquezas que o mar possui”, afirmou.

Os estudos são desenvolvidos no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica (LTF) da Universidade Federal da Paraíba. O planejamento é de intensificação de pesquisas em algas na busca de medicamentos para uma série de doenças, a exemplo das diferentes formas de artrite, preferencialmente a artrite reumatóide, osteo-artrite, lúpus, psoríase, doença de Crohn, asma, melanoma, doença de Alzheimer, mal de Parkinson e câncer, além da dor aguda e crônica.

O professor contou que os estudos com algas tiveram início em agosto de 2007, após o projeto idealizado por 23 professores da UFPB, oito da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), dois da Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e um da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), foi um dos quatro, entre 140 analisados em todo o país, aprovado pelo Governo Federal. “Foi uma surpresa, porque temos tradição de pesquisar vegetais de origem terrestre desde 1978. Mas hoje, o mundo inteiro está indo para os produtos de origem marinha porque a fauna e flora está acabando nos países desenvolvidos. Mas o Brasil está começando a perceber isso também”, comentou.

Combate do câncer à artrite

Entre os trabalhos desenvolvidos na área de farmacologia destacam-se os que visam o combate a doenças como câncer, trombose, asma, bronquite, verminoses, artrite, hipertensão, além da elaboração de remédios de reforço da memória.

No ano de 2006, foi aberto um edital pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O objetivo foi selecionar propostas para apoio às atividades de pesquisa, direcionadas ao desenvolvimento de fármacos e insumos farmacêuticos a partir de algas marinhas.

Em parceria com o Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) e o Ministério da Saúde, quatro grandes projetos foram implementados na área de Biotecnologia Marinha, um deles foi desenvolvido na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), intitulado “Rede Interinstitucional de Algas Bentônicas”. De acordo com o pesquisador e professor da instituição José Maria Barbosa Filho, esta e outras pesquisas estão em desenvolvimento desde então, somando-se a uma que obteve maior avanço e aguarda resposta para um Pedido de Depósito de Patente, que deve acontecer em agosto.

O projeto, intitulado “Uso do composto marinho caulerpina e composições farmacêuticas contendo os mesmos, no tratamento de doenças de dores, inflamatórias e como inibidoras da ciclooxigenase”, foi depositado no Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI) em 25 de novembro de 2010. Ele se relaciona a uma composição farmacêutica contendo a caulerpina, substância obtida a partir de uma alga chamada Caulerpa, para tratamento de doenças de origem inflamatória, a exemplo das diferentes formas de artrite, preferencialmente a artrite reumatóide, osteo-artrite, lúpus, psoríase, doença de Crohn, asma, melanoma, doença de Alzheimer, mal de Parkinson e câncer, além da dor aguda e crônica.

Alimento habitual no Oriente

O pesquisador da UFPB esclarece que em muitos países, em especial os do Oriente, as algas são fonte de proteínas, vitaminas e sais minerais. Também é muito empregado nas áreas de biologia molecular e biotecnologia, na fabricação de géis utilizados nos processos de extração e amplificação de material genético. Estão presentes na composição de diversos alimentos e bebidas industrializadas, como sorvetes e cervejas, atuando como substâncias gelificantes, estabilizantes e emulsificantes. “As algas podem ser utilizadas também como uma forma de adubação natural e eficaz. Seus talos são ricos em minerais essenciais ao desenvolvimento das plantas, como o nitrogênio e o potássio, além de um vasto campo na indústria farmacêutica. Em todas as áreas as algas se apresentam como fonte de biomassa com grande potencial de transformação”, revelou.

Para isso faz-se necessário a extração e identificação dessas algas. Estudos para elaboração de medicamentos demoram em média 15 anos para acontecer. Quando comprovada a eficácia no tratamento de alguma doença, é comum entra-se então com o Pedido de Patente, o que foi feito pelos pesquisadores da UFPB. A expectativa é que assim que patenteada, o que deve acontecer neste próximo mês de agosto, as substâncias descobertas sejam sintetizadas para produção em escala industrial.

Destaques na indústria

Alginatos – É uma goma viscosa produzida por algas pardas gigantes, comuns em mares frios e temperados. Tem elevada capacidade de absorver água, portanto, é um aditivo eficaz em substâncias desidratantes com alta aplicabilidade na indústria de papel e na fabricação de tintas e fibras têxteis. Também tem ação espessante e emulsificante na fabricação de xaropes, sorvetes, sopas, geléias e cremes da indústria de alimentos. Da mesma forma são usados em pastas e cremes cosméticos. Alguns remédios, usados para desintoxicação provocada por metais pesados no sangue, usam essa substância na sua composição devido a sua capacidade de absorver esses metais.

Agar – É produzida por algas vermelhas, constituindo a famosa gelatina em pó tão usada na indústria de alimentos e como clarificantes na produção de cerveja. Na medicina é usada na composição de produtos dietéticos no tratamento da obesidade. O Agar contém substâncias que ao entrarem em contato com soluções aquosas, se expandem no interior do estômago, transmitindo uma sensação de saciedade ao cérebro.

Carragenina – é uma gelatina gosmenta também extraída de algas vermelhas e, assim como o agar é amplamente usada na indústria de alimento. Destaca-se especificamente para clarificar mel e cerveja.

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