Moisés Soares escreve: o jumento e a política

Moisés Soares é advogado

O final de ano matrizense foge do habitual. É a festa do padroeiro, parque de diversões e programação de shows artísticos, trazendo um pouco de diversão ao povo. Mas, um jumento querendo participar da política local roubou a cena.

Enquanto os vereadores descansam no recesso parlamentar — exauridos do intenso trabalho que desempenharam durante o ano, na luta por uma sociedade mais justa e na infalível fiscalização do Executivo —, um jumento tenta entrar na Câmara Municipal.

Não, não era um eleitor revoltado — antes fosse. Era apenas um jumento querendo participar.

Não é uma piada deste cronista. Logo cedo, o jumento estava na frente da Câmara Municipal, intrigado com seu reflexo no espelho da porta principal. Tentou entrar na casa, mas não conseguiu. Com sua teimosia continuou insistindo contra o vidro da porta principal.

Os homens valentes da Guarda Municipal até que tentaram, mas não conseguiram retirar o jumento. Ele estava decidido a adentrar a casa dos homens sérios e a participar da política matrizense.

Nas manhãs de sexta-feira, as sessões legislativas são realizadas. A porta principal da Câmara Municipal está sempre aberta para o povo fiscalizar a atuação dos parlamentares. E onde está o povo? Seguindo suas vidas, completamente desinteressados com o que acontece no Município.

E os vereadores? Infelizes da vida com isso.
Na minha cidade, um jumento parece demonstrar mais interesse pela política local do que os próprios cidadãos. Mas talvez, o jumento só esteja lá por ser… burro. Afinal de contas, será mesmo necessário fiscalizar nossa casa legislativa? Temos onze parlamentares extremamente competentes e interessados no bem comum da sociedade matrizense.

Pobre jumento! Não sabe que podemos dormir tranquilos nos braços de nossos parlamentares, que trabalham arduamente por uma Matriz de Camaragibe melhor.

Depois de muita insistência, o jumento não conseguiu entrar. Um homem foi ao local, colocou uma corda em seu pescoço e o levou embora, contra a sua vontade. Talvez esse homem nunca tenha ido à Câmara exigir uma atuação séria por parte dos vereadores. Mas, hoje, compareceu para silenciar, sem saber, um pobre animal — autor do mais simbólico protesto que a cidade viu neste ano.

Matriz de Camaragibe, dezembro de 2019.

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