Thiago Pinheiro é advogado e escritor
Ele era juiz, mas atuava como verdugo, algoz dos acusados. Nas audiências de custódia, que se resumem à aferição da legalidade de uma prisão, já se antecipava e lançava agressivas admoestações contra o suspeito, antecipando eventual e incerta condenação. Os advogados, estupefatos, em sua maioria não tinham disposição para confrontar o carrasco. No Júri, composto pelo povo, após veredicto declarando a inocência do réu, o juiz se voltava raivoso para os jurados e, tomado de cólera, reprovava aquela decisão. Talvez não fosse um juiz na acepção técnica; era um cidadão comum julgando, com notas de sadismo, protegido pelo Estado, na condição de agente do poder.
Havia uma qualidade nele: examinava rigorosamente todos os casos, não para evitar excessos da acusação, mas simplesmente para auxiliar o promotor e destruir qualquer tese defensiva. Dizem que, no mundo jurídico, só há arrogância do poder em razão da submissão do outro. E eram muitos os advogados opacos, omissos e silentes.
Aquele juiz fazia suas próprias leis, revogava outras e criava seu próprio controle de constitucionalidade. Não pensava em aposentadoria; todavia, vez por outra, mencionava suas proximidades e percebia-se, naquela declaração, o medo de viver sem a toga, sem o poder. Ele não suportaria uma vida sem ordenar, sem possuir força normativa, sem palco para a exposição de suas ideias.
Um dia, o juiz irá descansar, longe dos processos e distante da justiça.








