Memória como campo de batalha: o que revelam as eleições da Psicologia em Alagoas

Por Silvio Rodrigo

O processo eleitoral dos Conselhos de Psicologia funciona como um espelho: reflete, para quem observa de fora, as tensões, contradições e disputas políticas que atravessam a profissão. Em Alagoas, o pleito recente não fugiu à regra — expôs não apenas divergências programáticas, mas também o retrato cru de uma categoria pressionada pela precarização e pelo desemprego estrutural.

A Psicologia brasileira nasceu dependente do saber técnico-científico estrangeiro. Mas, contraditoriamente, tornou-se também a imagem do Brasil: marcada pela instabilidade, pelos vínculos precários e pela necessidade de sobreviver em um mercado cada vez mais excludente.

No cenário alagoano, duas chapas disputaram a direção do Conselho Regional. Ambas, embora antagônicas, reivindicam o mesmo ponto: o poder.

A Chapa 11 encarna a vertente institucional: herdeira da expansão neoliberal do ensino superior privado em Alagoas, representa setores consolidados da profissão que orbitam em torno do mercado da técnica psicológica e da venda de serviços. É a Psicologia-empresa, que transforma o profissional em empreendedor de si mesmo.

Do outro lado, a Chapa 12 surge como contraponto: reúne psicólogos e psicólogas precarizados, uberizados, dependentes de plataformas digitais, contratos informais com clínicas e planos de saúde, além daqueles que engrossam o contingente estrutural do desemprego em Alagoas. É a face mais crua da profissão, feita de vínculos frágeis e da luta cotidiana para se manter ativa. Estes querem que Conselho deixe de ser apenas um órgão fiscalizador e burocrático para assumir seu papel político, hoje diluído nos silêncios institucionais.

O pano de fundo é claro: o serviço público, outrora espaço de inserção da categoria, entrou em colapso. A multiplicação de Processos Seletivos Simplificados (PSS), a fragilidade dos cargos comissionados e a desregulamentação das relações de trabalho corroeram qualquer possibilidade de carreira sólida. Restam fragmentos — e uma juventude de psicólogos forçada a transitar entre sonhos de estabilidade e a dureza da realidade econômica de um dos estados mais pobres do país.

Mais do que um confronto de programas, o que está em jogo é a memória da Psicologia em Alagoas, principalmente quando o apelo à memória para a legitimidade nos coloca de encontro a uma história oficial que, de tanto repetida, estabelece-se como legitimadora do poder, onde sua continuidade não é só óbvia, mas aparece como fundamentalmente “ética” e coerente às ideias de respeito à história — como se a Psicologia em Alagoas não fosse feita pelas mãos, músculos e vozes dos psicólogos em atividade social.

A história como “respeito”: eis a grande mentira sobre a história, assim como uma grande ilusão dos que estão no poder sobre a perenidade de suas imagens sacralizadas pela oficialidade. História, quando não respeita, insurge, se revolta e muda seu curso.

Nesse ponto, a crítica é inevitável: a gestão dos silêncios e o uso seletivo da memória funcionam como engrenagens de um autoritarismo que prefere a sacralização da história oficial à vitalidade das vozes dissidentes.

Mas eleições, como esta, têm o poder de fissurar essa blindagem. O que se revelou no processo eleitoral da Psicologia alagoana não é apenas uma disputa por cargos: é a confissão pública das entranhas de uma categoria tensionada entre o mercado e a sobrevivência, entre a institucionalidade e a insurgência da história viva.

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