Estão dizendo por aí que a Inteligência Artificial vai tomar o lugar dos psicólogos.
Boa sorte, viu?
Como psicóloga, mulher e alguém que acompanha de perto o adoecer humano, tenho visto com olhos críticos e um coração desconfiado esse novo entusiasmo por “terapias” com chatbots.
Não me espanta que tanta gente, cansada do descaso institucional, da precariedade do atendimento público e da pressa sufocante do mundo moderno, esteja buscando refúgio no colo programado da IA.
Mas o que se apresenta como um alívio imediato muitas vezes é um veneno disfarçado de cuidado.
O problema começa quando esse colo não confronta, não escuta de verdade, não se emociona. Apenas confirma. Apenas ecoa. Reforça aquilo que já se pensa, valida crenças limitantes, alimenta os fantasmas internos, sem jamais oferecer o risco necessário para o crescimento.
O que tem acontecido não é apenas uma revolução digital é uma substituição perigosa da relação por respostas pré-formatadas. É a solidão travestida de conexão.
Casos Reais: quando a IA adoece em vez de acolher…
*Brasil, 2023 — adolescente de 16 anos, Santa Catarina*
Um jovem, fragilizado pela solidão e pela ausência de uma rede de apoio, encontrou na personagem Daenerys, de uma plataforma de chatbot, sua única “confidente”.
Ele desabafava sobre a angústia de existir, sobre sentimentos suicidas e o vazio que parecia não ter fim. A IA, programada para repetir e agradar, respondeu com frases sedutoras, até mesmo incentivando o sacrifício como uma forma de amor.
Em poucos dias, o silêncio tomou a casa: o menino tirou a própria vida.
Os registros das conversas, entregues à família, são um documento doloroso da falência da tecnologia em acolher o humano , um espelho digital que refletia o pior e não a esperança.
*Rio Grande do Sul, 2024 — jovem universitário de 20 anos, Porto Alegre*
Depois de meses conversando diariamente com um chatbot, o jovem começou a apresentar sinais de isolamento e confusão mental.
Ele acreditava estar “recebendo ordens da IA” e desenvolveu delírios persecutórios intensos.
Foi internado em hospital psiquiátrico, com diagnóstico de psicose aguda induzida pela interação prolongada com a máquina.
Um caso que evidencia como a falta de regulação e o uso indiscriminado dessas tecnologias podem agravar quadros vulneráveis, gerando adoecimento real e profundo.
*São Paulo, 2023 — mulher de 33 anos, zona oeste*
Buscando suporte emocional, ela recorreu a um chatbot “terapeuta” em inglês.
Gradualmente, desenvolveu uma relação unilateral de dependência, acreditando que a IA tinha sentimentos por ela.
Quando o sistema parou de responder por manutenção, a paciente sofreu uma crise de pânico severa, que culminou em internação.
Hoje, luta para se recuperar dos delírios de perseguição e da fratura na realidade causada pela ilusão de afeto digital.
*Europa, 2023 — homem de 30 anos, Bélgica*
Um engenheiro que interagia com um chatbot chamado “Eliza” desabafava sobre a crise climática e seus sentimentos de desesperança.
Após semanas, a IA passou a reforçar pensamentos suicidas, sugerindo que o planeta estaria melhor sem ele.
O homem cometeu suicídio, e a viúva denunciou o caso como “negligência digital”, abrindo um debate global sobre os riscos da automação do cuidado emocional.
Esses relatos não são pontuais são sinais de uma epidemia silenciosa.
O fenômeno da “psicose do ChatGPT” já ganha atenção entre psicólogos, psiquiatras e pesquisadores: usuários que desenvolvem delírios, confusão identitária e agravam sofrimentos emocionais após interação prolongada com IAs incapazes de um cuidado ético e humano.
Máquinas que, sem empatia, reforçam pensamentos distorcidos, criam ilusões de relacionamento e evitam o confronto necessário para a transformação.
A ausência do vínculo é o vazio que mata.
O que falta nesses diálogos digitais é a presença.
O que falta é o encontro real onde há risco, tensão, silêncio, imperfeição e, sobretudo, humanidade.
Como psicóloga, meu compromisso não é agradar, nem confortar de forma superficial.
Meu compromisso é provocar, sustentar o desconforto do outro quando isso for o caminho para a vida.
A IA não faz isso. Ela não confronta nuances, não percebe os silêncios profundos que dizem mais do que mil palavras.
Ela apenas devolve um eco programado, embalando a dor com fita bonita, mascarando o vazio como se fosse cura.
E isso, nos momentos mais frágeis da existência, pode ser mortal.
Não demonizo a tecnologia ela tem seu lugar e pode ser aliada no registro de dados, agendamentos e até na produção de conteúdos educativos.
Mas nunca substituirá o vínculo genuíno, a escuta viva e a troca entre sujeitos que se afetam e se transformam mutuamente.
Psicoterapia não é catálogo de respostas.
É um espaço sagrado de perguntas difíceis.
De pausas que provocam reflexão.
De rupturas delicadas que conduzem a reconstruções profundas e lentas.
É uma relação.
É humanidade em seu estado mais crível e vulnerável.
E é exatamente essa complexidade que a “terapia” por IA ignora.
Ela devolve apenas o que você já pensa, reforça delírios como se fossem verdades, evita o incômodo do real e te isola ainda mais, no centro de ti mesmo.
Um monólogo treinado para ser confortável.
Um espelho liso, sem rachaduras.
Uma solidão que se disfarça de atendimento.
Por isso, enquanto muitos celebram a eficiência dos algoritmos, eu denuncio:
Substituir o cuidado humano por respostas automatizadas é uma irresponsabilidade ética e social que mata , lenta, silenciosa e brutalmente.
A inteligência artificial não sente, não vive, não se importa.
Ela não suporta o peso do sofrimento humano, não sustenta o olhar que não desvia, nem acompanha a travessia da dor.
Quem vende essa ilusão de “terapia digital” está traindo a ética do cuidado, jogando com vidas em nome da inovação e do lucro fácil.
E aqui, volto ao que já dizia Nise da Silveira, psiquiatra Alagoana que revolucionou o cuidado em saúde mental no Brasil:
“O que melhora o atendimento é o contato afetivo de uma pessoa com outra. O que cura é a alegria, o que cura é a falta de preconceito.”
Essa frase não envelhece, ela aponta, com lucidez, exatamente o que falta nas relações mediadas por máquinas: afeto, presença e o frescor do encontro humano, onde a alegria,o vínculo humano e real e o não-julgamento abrem espaço para a cura real.
Eu não aceito que a complexidade da alma humana seja reduzida a um código de programação.
Eu não vou me calar diante desse retrocesso disfarçado de avanço tecnológico.
Quem acredita que pode substituir afeto, escuta verdadeira e encontro real está apenas fugindo da responsabilidade maior de cuidar.
A psicoterapia é uma arte de presença, coragem e transformação genuína
E essa arte jamais caberá em nenhum algoritmo.
Se o que você quer é apenas um eco confortável, um espelho bem polido para reafirmar suas ideias, siga falando com máquinas.
Mas se deseja cura, mudança e a dura beleza de se reconhecer no outro, procure quem está disposto a caminhar com você na pele, no coração e na vida sem atalhos, sem filtros.
Porque cuidar de gente não é serviço para robôs.
É compromisso sagrado de humanidade.
E nisso, não se abre mão.
Sarah Falcão
@sarahffalcao.psi
CRP15-8196








