Existem cortinas que são postas pela intencionalidade política construtora daquilo que passamos a chamar de mundo, que dos meus olhos caem a cada dia, revelando a grandeza da produção de pensamento que brota do Nordeste, e abre leque variado em gêneros literários para muito além do regional, sem negar que essa região profícua colabora para a riqueza brasileira.
Consumo escrita territorial alagoana com amor.
Nesse amor de pessoa leitora, encontro abraços e semelhanças, lágrimas e sorrisos que me levam a compreender Dirceu Lindoso, afirmando que Alagoas é o que se ama e o que se dói. E como amamos! E como dói!
Por falar em Dirceu Lindoso, meu encontro com seu romance Os Filhos de Ana Rosário rende em minha alma boreal o suco da análise sociológica híbrida, entre águas boas e ruins que escorrem por nosso rincão enfeitado de coqueirais e atacado por vilanias capitais antigas e novinhas em folha.
Ana Rosário é um resumo de mulher sobrevivente, embora nem todas amealhem em suas vidas tanta força quanto ela. Matriarca com sentido de mando. Parideira como as lagoas, os brejos, as bocas de rio do nosso litoral. Mãe de personalidades distintas, colocando no mundo filhos para muitas serventias!
A metáfora da criação matriarcal, com sentido de contribuição nessa cosmogonia alagoana opressora, na qual o sobrevivente oprime, pune, comete os mesmos crimes dos quais se vinga.
E o olhar masculino bem resolvido do escritor, que em sua própria história sentiu o gosto amargo da distinção cultural elevada, do sonho de comunidade próspera entre calhaus e burgalhaus, mais o exílio, esse eterno acompanhante do alagoano voltado ao luxo da intelecção intensa.
Minha natureza se refestela com sua palavra descritora de lugares e existências vocabulares que conheço, reconheço, maturo lembranças sobre elas:
“Essa peitica contra Olinda, a favor do Recife, era que a gente do brejo não gostava de subir ladeira, e Porto Calvo e Olinda só tinham ladeiras”.
Me vejo desde criança nas ladeiras de Porto Calvo, no Alto da Forca, na Rua do Carrasco…minha adolescência e as festas de São Sebastião, enladeiradas!
Passo a vista por Olinda e entro nos conventos, museus, aprecio a mar olhando de cima comendo cocada…
Visito ruínas de mosteiro em São Bento e do topo da ladeira observo navios, pontos de idas e vindas pelo mar…
Entro no livro. Olhando silenciosa para a descendência cigana de Ana Rosário e guardo meus temores de gente destemida, que usa faca debaixo da saia e amola lâmina de maneira sabida.
Na literatura de Lindoso, algo fortemente posto na história alagoana: a morte.
Morte banal. Contratada. Feita em fábulas, transformando homem em bicho para sangrar sem culpas. Morte política ou corretiva, por inveja ou ciúme, para roubo ou imposição de silêncio.
Entre a beleza e exuberância natural, o risco de nunca mais chegar em casa. Alagoas, doendo no coração das mães, das mulheres, dos filhos.
Por fim, e imersão no Vale do Camaragibe, onde cascavilho motivos para continuar amando porque o que se dói todos os dias renova opressão.
Alagoas com Dirceu Lindoso e um final de semana de estudos, análises e observação do vento nas folhas das bananeiras, dizendo que junho é mês de comer o milho que alguém plantou e fincar dentro de casa o chinelo e o coração.
Há muito amor e muita dor nessa página aberta. Mas Ana Rosário já vestiu sua roupa de festa. É tempo de tomar cachaça e festejar com o povo as festas de São João.
Viva Dirceu!





