Os investimentos em finanças climáticas vêm aumentando, mas ainda estão muito aquém do que o mundo precisa. É o que mostraram os participantes da mesa-redonda “Roteiro Baku–Belém: O desafio de atingir a meta de US$ 1,3 trilhão em financiamento climático até 2035”, realizada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), com apoio da Nature4Climate. Esse valor foi anunciado durante a COP29, realizada ano passado, para apoiar ações de mitigação e adaptação em países em desenvolvimento.
Os três especialistas convidados abordaram a importância de unir capitais públicos e privados para o financiamento climático. Bella Tonkonogy, diretora sênior programática da Climate Policy Initiative (CPI), disse que o fluxo de investimentos quase dobrou entre 2018 e 2022, passando de US$ 674 milhões para US$ 1,459 bilhão, mas ainda é insuficiente. Desse total, cerca de US$ 1,3 trilhão vai para ações de mitigação, financiadas principalmente pelo setor privado.
– Parece muito dinheiro, mas não é tanto se compararmos ao que é necessário. O mundo precisa de US$ 7,4 trilhões por ano para limitar o aquecimento global a 1,5°. Já existe muito dinheiro disponível, mas o problema é que grande parte ainda está sendo direcionada para atividades que afetam negativamente o clima ou aumentam a vulnerabilidade das pessoas. Precisamos redirecionar esse capital para soluções que construam um futuro mais seguro e sustentável – afirmou a diretora da CPI, organização sem fins lucrativos com escritórios no Brasil, na Índia, na Indonésia, na África do Sul, nos Estados Unidos e no Reino Unido.
Já os investimentos em adaptação climática, embora estejam aumentando, correspondem a apenas 5% do total destinado ao financiamento climático. Foram US$ 76 bilhões em 2022, destinados a ações para ajudar a sociedade a lidar com as mudanças no clima, como reflorestamento para conter deslizamentos, melhoria de redes de drenagem e pavimentação permeável, por exemplo. Segundo Bella, 90% desses recursos são provenientes de fontes públicas, como governos e bancos de desenvolvimento.
Luciana Antonini Ribeiro, sócia-fundadora da gestora de recursos eB Capital, destacou na mesa redonda, realizada em 19/05, que é preciso “falar em investimento, não em financiamento”. A empresária considera fundamental atrair o capital privado para as discussões no ambiente da COP30, em novembro, em Belém. Ela lembra que já existe uma iniciativa neste sentido, a Sustainable Business COP (SB COP) – capitaneada pela Confederação Nacional da Indústria, com o apoio de 12 entidades semelhantes pelo mundo – para discutir o papel das empresas rumo a uma economia de baixo carbono.
No entanto, Luciana – que liderou a força-tarefa do B20, o fórum de negócios do G20, realizado ano passado no Brasil – diz que alguns obstáculos precisam ser superados para que o setor privado financie efetivamente a agenda climática. Entre eles, estão o risco cambial, a previsibilidade dos processos de licenciamento e a ausência de offtakers, acordos de compra e venda de produtos que ainda serão produzidos.
– Para construir novos mercados, é preciso ter clareza da demanda para que se tenha oferta. Quanto à questão cambial, se não a resolvermos, não vamos atrair capital do norte global. Nos países em desenvolvimento, investidores podem ter retorno em moeda local, mas prejuízo em dólar. Outro ponto é ter bankable projects: o capital privado só entra se o projeto tiver previsibilidade. Muitas vezes, a legislação para aprovação de projetos de infraestrutura é em nível local e demora anos. Qual é a probabilidade de um investidor privado entrar em algo que vai demorar anos para ser aprovado? – questiona Luciana.
Mediador da mesa-redonda, Lucca Rizzo, especialista de Finanças Climáticas do iCS, destacou avanços promovidos pelo Brasil para impulsionar o financiamento. Foram criados a Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica (BIP) – que conecta projetos a instituições financeiras – e o Eco Invest, para atrair recursos privados estrangeiros. Além disso, o Brasil consolidou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês), que vai possibilitar retorno financeiro aos investidores.
– Nesse espírito de reunir diferentes setores, o setor privado tem que aderir a esse mutirão e apresentar iniciativas na COP – disse Lucca.
O roteiro de Baku – a capital do Azerbaijão, onde ocorreu a COP29 – a Belém implica encontrar formas de atingir a meta de US$ 1,3 trilhão para os países em desenvolvimento e como aplicar esses recursos. Josué Tanaka, professor da Brayton Research Institute, especialista em finanças climáticas, diz que o trabalho envolve três aspectos: a estimativa de investimento necessário para cada área (mitigação ou adaptação), as condições macroeconômicas para que os recursos cheguem e de onde virá o dinheiro. Segundo ele, a expectativa é de que metade seja proveniente do setor privado. Tanaka destacou ainda a contribuição do G20 no Brasil para os avanços que são esperados durante a COP30:
– O Brasil está nessa situação quase única de ter de um ano para o outro a presidência do G20 e da COP30. É evidente que o país está construindo sobre resultados que podem ajudar a atingir esse objetivo de US$ 1,3 trilhão, como a reforma dos bancos multilaterais de desenvolvimento, aumentando sua capacidade de financiamento e desenvolvendo a cooperação entre eles.
Tanaka acrescentou que US$ 1,3 trilhão pode parecer muito dinheiro, mas é preciso relativizar:
– Se você pega o balanço dos bancos privados, chega a um número bem além de US$ 100 trilhões. Se olhar o tamanho do mercado global de ações, também. Estamos conversando sobre o futuro da humanidade no planeta, e isso deve ser realizável, certo?
Fonte: assessoria








