Os donos de engenho e os usineiros implantaram e ajudam a manter uma casta perversa: quem nasce no partido da cana morre nele e em cidades no entorno dos canaviais que já oferecem Estado mínimo: hospital só com dipirona e soro, supermercados com produtos caros e de baixíssima qualidade, assistência social ligada apenas à distribuição de cestas básicas, junto a caras e bocas de prefeitos ao lado dos humilhados pela fome.
Digo isso porque um estudo da Universidade de Zurique (Suíça) e USP, publicado neste domingo na Folha de São Paulo, mostra que os 10% mais ricos no Brasil continuam ganhando até 50% mais que a metade mais pobre, ainda que eles tenham o mesmo grau de instrução.
Ou seja: se o filho do usineiro e o filho do cortador de cana tiverem o mesmo diploma do ensino médio, as recompensas pelo investimento de tempo e dedicação será 50% maior para o mais rico.
Alagoas é o nono lugar mais desigual do Brasil, entre os que têm fundamental incompleto, mesma posição aos que possuem médio incompleto. No ensino superior, estamos em quarto (mais desigual).
Dois diplomados em Direito ou Medicina em uma universidade pública alagoana terão chances diferentes, se um deles for mais rico. Ou herdeiro de médico ou de gente do Judiciário.
O governador Paulo Dantas foi reeleito para ajudar a reduzir esta distorção.
Mas o que chama a atenção é que as promessas de campanha são muito modestas exatamente na educação:
– Ampliar para 18% a cota parte do ICMS para os municípios que apresentarem melhoria no IDEB;
– Aumentar de R$ 100 para R$ 150 o valor de uma bolsa para alunos nas escolas em tempo integral;
– Adaptar mais 50 escolas (hoje são 100) para tempo integral.
O governo não sabe o impacto no desempenho escolar no pagamento de uma bolsa aos alunos do ensino integral. Também não controla o fluxo de caixa nas cidades onde as escolas apresentaram números melhores do Ideb.
Aliás, o Ideb 2021 mostra que Alagoas tem o 4o pior ensino médio do país. Estamos reprovados com nota baixíssima: 3,6. Abaixo apenas do Rio Grande do Norte (3,4), Amapá (3,3) e Pará (3,2).
Quando comparamos a proficiência dos estudantes alagoanos nas áreas de português e matemática, Alagoas tem o quinto pior resultado do país. Ou seja: os alunos mal dominam a tabuada e sequer interpretam um texto.
Analisando o Ideb de Alagoas com o do Brasil, seguimos abaixo da média nacional: 4,2. É como se fosse intencional que a escola pública ofereça um ensino ruim, em uma estrutura ruim e sequer entenda as condições materiais e intelectuais dos alunos. Sim, eles passam de ano porém arrastando um fracassado desempenho até chegar nas muralhas do Enem, o teste para ingressar no ensino superior público e privado. Quem vem da escola pública tem menos chances de passar em cursos mais disputados, como Medicina ou Direito, por serem menos preparados pelas escolas.
Dantas já é pressionado pela Assembleia Legislativa para garantir a miudeza dos acordos político-eleitorais. Mas ele vai precisar também construir um programa de impacto que equacione esta herança secular e maldita.
Ou ele será mais um a sorrir nas fotografias preto e branco penduradas daqueles governantes de ação minúscula.





