Pelos meados de 2014 um acorde diferenciado começou a se mostrar, era o grito noturno e arrepiante do “cristofascismo” brasileiro, que remexia as violências internalizadas, para não legitimar o resultado do processo eleitoral democrático que havia eleito Dilma Rousseff.
Obviamente, tal energia de coerção já cozinhava em fogo brando desde as primeiras candidaturas de Lula à presidência do Brasil. E quem conviveu com moradores dos rincões saberá melhor do que falamos aqui, pois o poder local e as vibrações religiosas chegam mais perto cotidianamente.
Todos os investimentos possíveis contra a representatividade da esquerda, por certo foram feitos. Desde a “feiura” de um “sapo barbudo”, analfabetismo, alcoolismo, ao estupendo kit gay que responsabilizou Dilma e Fernando Haddad pela desvirtuação da família em contexto mais recente.
Participaram ativamente das campanhas difamatórias, igrejas evangélicas, católicas e centros espíritas, entre outros conglomerados conservadores.
Nesse bojo, não cabe a racionalidade, ética humanitária e estética conviviológica. Pois se a narrativa pode ajudar aos interesses dos grupos citados, ninguém se preocupa em saber se ela é verdadeira ou não, e repassam como fundamento de ódio.
Deste eco cristofascistóide vindo dos templos e grupos identificados como religiosos, um projeto autoritário toma corpo no Brasil, em consonância com o que ocorre em outros países da América Latina, ou seja, eles pertencem ao mesmo núcleo.
O crescimento do autoritarismo pelas vias de uma teocracia que passou incólume pelo crivo da cordialidade dispensada por outras vertentes de ação e pensamento, não pegou a sociedade de surpresa, mas talvez tenha sido subestimado demais.
Muitas igrejas evangélicas vestem seus “soldados crísticos” com fardamento militar; segmentos da igreja católica entronizam perseguidores de professores em nome de uma inventada “ideologia de gênero” os designando por “cruzados” e espíritas conservadores através de celebridades da mediunidade ostensiva, negam a legitimidade dos espíritas de esquerda, afirmando posse de uma doutrina que sopra onde quer.
O cristofascimo que assola o Brasil nos instiga a caminhar pela areia ao lado do Nazareno, aprendiz de carpinteiro, filósofo humanista, pescador de almas e afeito à partilha de peixe e pão.
Para salvar a fé, lembremos que Jesus de Nazaré não tinha onde recostar a cabeça, e ainda assim, falou que saciaria as fomes, sedes e necessidades humanas, dando o exemplo caritativo, curador, e assertivo no reconhecimento de que muitas vezes os exércitos não sabem o que fazem, mas seria preciso dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.
A vida e a liberdade, são de Deus!
Que os cristofascistas não intervenham nos campos sagrados da nossa fé, nem nos territórios das nossas lutas, como vencedores legítimos; pois se desgarraram do Nazareno para vestir de ouro e prata um cristianismo de base monárquica, que serve aos interesses de Mamon e despreza o Rei dos Judeus, afundando em seu rosto plural uma cruel coroa de espinhos.
O reino de Jesus não pode ser deste mundo diminuto, onde irmão persegue e destrói irmão, empunhando as armas da fé.
Por ora os caminhos podem parecer estreitos, mas larga sempre foi a porta da perdição, e por ela passam os arrogantes que batalham por uma salvação individual massacrando multidões com atos e palavras.
Na terra arada dos corações justos, não brota semente violenta. Se a vivência religiosa ressuscita tiranos no psiquismo de multidões afoitas, oremos e lembremos de não negar o Crucificado, nem aderir à lógica dos crucificadores.





