Esse conglomerado de representações sociais; na distribuição sutil dos papéis, a força e a vulnerabilidade de um povo 
ante os imperativos da sobrevivência, é fascinante!
Por vezes é preciso raciocinar vagarosamente, para não embotar os sentidos, enquanto contemplamos a luta digna do trabalhador alagoano. Principalmente quando ela mistura suor e água salgada, sob o barulho das ondas…
Assim foi o encontro com Antonio Emidio dos Santos, de 61 anos de idade e mais de 40 de mar. O Seu Totô, como é conhecido nas imediações da Garça Torta.
Primeiramente, me chamou atenção o cuidado com as sobras de rede de pesca já inservíveis à função original. Um amontoado delas bem longe das águas, ao dispor de quem as procure para reciclar. As redes podem ser reutilizadas na montagem de galinheiros, proteção de hortas e outras invenções.
Rede largada no mar é um risco para os peixes. A intenção de Seu Totô é trazê-los em atividade de pesca, para garantir o conforto da família, matar a fome e poder vender para gerar renda, como seus ancestrais ensinaram.
Disse já ter conseguido trazer das águas, de 150 a 200 quilos de peixes. Se é história de pescador, ou não, importante mesmo é ver seu quase lamento ao afirmar que isso já não acontece.
“Agora é mais dificil, tem vez que a gente puxa de 10 a 15 redes para pegar um peixe ou dois”.
Apesar da diminuição da quantidade, afirma que pega no mar de Garça Torta, todo tipo de peixe. E ainda é possível cuidar da família com a pesca, dependendo dos instrumentos que se tem. Mas lamenta: “os jovens não querem mais a pesca. Ela maltrata, o sol acaba com a pele, o pescador leva chuva. Ele tem que ser saudável, se beber e fumar, não aguenta.”
E ressalta as vatagens:
“Quem é da maré come muito peixe, é dificil adoecer. O mais velho pescador da colônia tem 84 anos e o mais novo, 23. Muitos estão envelhecendo e não são subtituídos.”
Enquanto fala seus dedos agéis no conserto da rede, não param. Explica que elas rasgam muito, são pedras e peixes grandes a fazerem esses estragos. Pergunto sobre a limpeza do lugar, ele responde orgulhoso: “quem suja vem de fora, deixa os bagulhos na praia. Pescador não suja, quer limpeza na praia. A gente limpa toda a área.”
“Já peguei aqui tubarão de 200, 150 e 100 quilos! Isso quando era mais novo. Hoje passo três dias no mar, pego boca-mole, cavala e vendo tudo ao atravessador.”
“Já tive susto no mar na frente de um navio, sem poder sair. Dei as costas para morrer sem ver, quando o navio desviou.”
“Também tive medo de tubarão, tinha uns dez, eram muitos! Mas também faz medo quando a chuva pega a gente no mar. Tenho medo do mar, quando o temporal pesado agita a gente numa jangada.”
“Quando era novo, tinha medo não. Mas agora, quanto mais velho mais tenho medo do mar!”
Seu Totô, que não gosta de ir a médico, se diz saudável. Vai levar a profissão de pescador até o fim, aproveitando para remendar sua rede admirando a paisagem fantástica da praia de Garça Torta, que apresenta mudanças que ele não sabe explicar, mas sente os efeitos.
“Antigamente eu via muitos golfinhos aqui, hoje são poucos. Ainda tem muitos peixes, mas já teve mais.”
A pose para a foto, exibindo a pele curtida, a face resignada e a consciência tranquila de quem se identifica com a maré, enquanto dela extrai a proteína para a mesa e a mercadoria para a venda.
Sem mais exigências. Um alagoano como muitos, integrado ao mar, ao sol, ainda que fustigado pelos ventos das tempestades que assustam.
Numa despedida calorosa, trazendo essa riqueza no papel, hoje transcrevo a mensagem poética das vagas que escondem as mazelas de uma sociedade que orquestra a desigualdade e a exploração com muito azul-turquesa e verde-esmeralda sob o calor que escalda as areias e queima os pés da gente.
Maceió é assim, prenhe de força humana, movimentando com a tração dos braços simples a roda da fortuna desconhecida.








