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Famílias tradicionais no campo têm histórias (e trajetórias) diferentes

Duas famílias em Alagoas são tradicionais no campo. Os Dantas, de Major Isidoro, tinham uma produção mais voltada à agricultura familiar, sem cana de açúcar; os Antunes plantam cana desde a época dos engenhos.

Edgar Antunes Filho tem 37 anos. É presidente da Associação dos Plantadores de Cana (Asplana). Sua família planta cana desde o seu bisavô, quando ele ainda era dono de engenho.

A Asplana tem 7 mil fornecedores de cana, 90% deles são pequenos produtores. Edgar conhece o filme.

“Já vi muitas vezes o fornecedor mudar para outras culturas e até para a criação de gado. Mas, o açúcar é uma commoditie, os preços variam no mercado internacional. E quando a situação melhora, ele volta para a cana”, explica.

Ele vê fornecedores hoje plantando eucalipto, soja, maracujá. Vê também fornecedores endividados, sem linha de crédito, no rastro da crise das usinas.

Edgar Antunes: presidente da Asplana tem família que planta cana desde quando Brasil tinha rei

“Existem filhos de fornecedores que não seguem o caminho da família. Arrenda a terra para a usina”, analisa. Edgar não muda o perfil; o pai, Edgar Antunes, é fornecedor de cana e também cria gado. O presidente da Asplana tem dois filhos. O de 10 anos manifesta interesse pela cana. “Se depender de mim, segue este caminho”, aposta.

A família teve um auge na produção: 60 mil toneladas, na safra 2002/2003. “Nem meu bisavô conseguiu tanto”, lembra. Mas crê que naquela época existiam vantagens na produção. “Na época do meu bisavô, que ainda era dono de engenho, não existia uma produção em larga escala, a lavoura não era mecanizada. Ele tinha uma margem de lucro muito maior”. Como analisa hoje? “Hoje vivemos submetidos a multas. Somos obrigados a comprar e fiscalizar o uso de equipamentos de proteção individual. Existe trabalhador obrigado a usar um óculos numa região de bastante calor. Somos punidos se ele não usar. A legislação do campo tem de ser diferente da cidade”, afirma. Acredita que o governo Jair Bolsonaro vai ajudar bastante na flexibilização das regras trabalhistas e atrair, mais uma vez, os fornecedores para a cana de açúcar.

Já a família Dantas que hoje se estabeleceu em Matriz de Camaragibe, na região norte de Alagoas, veio de cidade de Major Isidoro. Os pais de Ramon Dantas moravam num sítio. Os filhos estudaram na Escola Agrotécnica de Satuba. Aos 21 anos, o irmão de Ramon, Rômulo, fundou uma cooperativa de Matriz. Hoje ele tem 29 anos e 135 cooperados. O começo foi duro. Primeiro porque o êxodo rural convencia potenciais agricultores familiares que eles deveriam ser empregados. Daí eles saíam de Matriz e se mudavam para Maceió em busca de trabalho ou para plantar cana em Mato Grosso ou trabalhar em indústrias na cidade de Rio Verde, em Goiás.

Ramon Dantas e uma tradição desde sempre: “A agricultura familiar é libertadora”

Ano passado, surgiu um sindicato voltado a agricultores familiares. Hoje ele tem 40 sócios. Porém, hoje as muitas terras improdutivas das usinas na região não plantam alimentos que poderiam abastecer a feira de Matriz: 80% dos produtos comercializados, diz Ramon Dantas, 27 anos, vêm de fora.

Apesar de, aos poucos, ex-funcionários das usinas ou outros trabalhadores estarem se transformando em agricultores familiares, a cultura geral ainda é de resistência ao que se considera moderno demais. Sindicato e cooperativa buscam mostrar a existência de caminhos para linhas de microcrédito. A Prefeitura de Matriz e a usina também não ajudam na mudança de eixo, que é a diversificação de culturas.

“O trabalho é mostrar ao agricultor o potencial das terras. A agricultura familiar é libertadora, quando se vê um assalariado da usina se tornar agricultor familiar, que faz o horário dele, que potencializa o próprio capital, faz o próprio investimento se tornar maior, a agricultura familiar vira um caminho. Todos os solos que existem no mundo existem na nossa região, nossa terra tem muito nutriente. Muita gente torce para dar errado. E nossa luta continua”.

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