Cresci às margens de um rio forte, apesar das etapas em que parece ter sido vencido pela poluição, destruição de suas matas ciliares e todo descaso que lhe é aplicado pela ausência de qualquer tipo de educação ambiental.
Mas ninguém nunca duvidou de que o Rio Camaragibe corre para o mar! Rastejante ou veloz, ele carrega as histórias desse povo, que desde os índios Potiguares que comiam camarão às suas margens, sendo depois massacrados e expulsos pelos sesmeiros e concentradores de terras, aos pescadores de outrora, lavadoras de vísceras bovinas e lavadeiras de brancos lençóis…aos choros dos filhos e filhas dos afogados em suas águas turvas, ele marcou presença.
Rio de brincadeiras e traquinagens infanto-juvenis, foi causa de muitas surras em minhas costas subversivas, louca pelos mergulhos afoitos, a desobedecer a mais severa das ordens: era proibido entrar no Camaragibe!
Último berço de vários colegas, também de muitos desconhecidos…as águas que afogaram a menina que voltou para buscar a sandália que lhe havia escapado de um pé… também foi abrigo para pratos, copos, panelas e talheres da cozinha de minha mãe, quando uma secretária matreira foi burlar a falta de água encanada lavando a louça por lá, e tentou equilibrar a bacia na cabeça sem uma rodia bem feita…quase ficamos sem ter com o que comer, para desconsolo e raiva da dona de nossa casa!
Rio que criou os melhores camarões-pitú que já comi, assim, como, me apresentou a sôia, o peixe malcriado dos trancosos ouvidos, que por recusar atender um pedido de Nossa Senhora ficou com a boca torta. Era também um vasto criadouro de piabas travessas…a pipocar na frigideira quente, tornando crocantes essas memórias.
Hoje lembrado com temor…tensão…respeito…
Rio causador de cheias, desalojando a pobreza de seus casebres e depois invadindo mais, alcançou a mediana moradia…chegando a ilhar a cidade inteira, com a praça à descoberta, protegida pela imagem do menino Bom Jesus que Dona Ida Beleca apresentou para contenção das águas.
Retomou seu império com as recentes chuvas, enfeitado de baronesas e correntezas fortes. Denuncia a insegurança gerada pelas gestões omissas, quanto incapazes de entender sua importância, seu valor para a vida e a história das gentes camaragibanas, suas filhas e filhos, comedores de sambararu, traíra, carapeba e até o lustroso, de dorso prateado à flor das águas, camorim. Vítimas da indústria do açúcar, da permissividade de cada um de nós.
Temendo a enchente, essa gente visita a ponte. Mede a intensidade de sua força. Reconhece que é frágil diante da sua ira. Grande criador de todos nós, o Camaragibe não tem tempo para nos explicar mais nada. Arrasta o que encontra e ainda nos consola por continuar em seu vasto leito, entrecortado e alargado pelas várzeas.
Como não render-lhe essa homenagem nesta noite fria?





