Lesões na coluna provocadas por ondas crescem 50%

Em 2011, o hospital, que é referência para casos de afogamento, operou dez pessoas vítimas de traumatismo raquimedular

O Globo

Quem está de fora pode até achar graça e chamar de “mico” quando vê alguém rolando descontroladamente dentro de uma onda. Mas, para quem está dentro do mar e acabou de levar um “caixote”, o risco de um acidente com sequelas graves e até morte é grande. De dezembro de 2011 a março deste ano, o setor de neurocirurgia do Hospital municipal Miguel Couto, na Gávea, registrou um aumento de cerca de 50% nos casos de lesões na coluna cervical provocadas por acidentes com ondas. A maioria das vítimas é de adolescentes e jovens em idade produtiva.

Em 2011, o hospital, que é referência para casos de afogamento, operou dez pessoas vítimas de traumatismo raquimedular. Dessas, quatro tiveram traumas na região da cervical, que são os mais críticos. Em 2012, até março, foram 17 traumas de coluna vertebral, sendo oito na região cervical. Ou seja, em três meses, a equipe registrou quase o dobro do número de casos de todo o ano passado. Com uma equipe de neurocirurgia completa – uma raridade no setor público de saúde -, o Miguel Couto tem conseguido operar todos os pacientes na fase aguda do traumatismo, nas primeiras 12 horas, o que determina uma chance maior de recuperação neurológica.

O neurocirurgião Ruy Monteiro, que comanda a equipe, diz não saber os motivos do aumento do número de casos. Ele afirma, no entanto, que o descuido tem sido uma das causas mais relatadas pelos próprios pacientes.

O comandante do Grupamento Marítimo (G-Mar) de Copacabana, tenente-coronel Marcelo Pinheiro, diz que a facilidade de transporte, como o metrô, está atraindo um número maior de frequentadores às praias. Entre eles, pessoas que não estão acostumadas com o mar e acabam se acidentando em valas ou se afogando.

A primeira causa de lesões na coluna

Contrariando as estatísticas, segundo o neurocirurgião Ruy Monteiro, os acidentes ocorridos com ondas são a primeira causa de lesões de coluna entre os pacientes atendidos no Miguel Couto. Em segundo lugar estão os acidentes de automóveis e, em terceiro, os esportes de contato, como o futebol.

O assunto estará na campanha “Pense bem”, da Sociedade Brasileira de Neurocirurgia, que será desencadeada em maio e tem o nadador Cesar Cielo como estrela. O objetivo é conscientizar a população para os riscos de traumas na coluna, e o perigo de acidentes com mergulhos, tanto no mar como em piscinas, é um dos temas da campanha.

“Respeite sempre o mar”. O ensinamento é do produtor de eventos Douglas Kfuri, de 31 anos. Acidentado após um mergulho no dia 18 de fevereiro na Praia do Recreio, ele está internado no Miguel Couto se recuperando de uma infecção, mas perdeu os movimentos das pernas. Douglas ficou 30 dias internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI), respirando por aparelhos e com um quadro de tetraplegia. Os movimentos dos membros superiores voltaram, mas quanto à voltar a andar, ainda é uma incerteza.

Douglas lembra que, no sábado de carnaval, foi à praia com um grupo de amigos. As ondas estavam grandes. Ele foi dar um mergulho, mas quando foi furar uma onda acabou batendo a cabeça num banco de areia.

– Segundos após o acidente, percebi que tinha perdido os movimentos. Consegui, com muito esforço, levantar os braços. Mas já tinha bebido muita água quando, de repente, uma outra onda me pegou. Bebi mais água. Vi que me afogaria mesmo e desisti. Estava cansado e tinha certeza que ia morrer – relata Douglas.

Desacordado, Douglas foi resgatado pelos amigos e, poucos minutos depois chegaram os bombeiros.

– Eu acordei e cheguei a ouvir um deles: ‘Já era. Perdemos ele’ – lembra o produtor.

Douglas recebeu os primeiros socorros, foi imobilizado e percebeu que não sentias as pernas e os braços. Ele foi levado de helicóptero para o Miguel Couto, onde foi operado 12 horas depois. A cirurgia, segundo o neurocirurgião Ruy Monteiro, foi um sucesso. Mas, como na maioria dos casos o pós-operatório é bastante complicado. Principalmente, por causa de problemas pulmonares. Com uma pneumonia, Douglas precisou ficar 30 dias no CTI.

– Foi o pior momento. Fiquei atordoado e perdi a noção do que tinha acontecido. Entrei num grave quadro de depressão e só melhorei com a ajuda de uma psicóloga e depois que o hospital permitiu que a minha família ficasse mais tempo comigo – conta Douglas, que é casado e tem um bebê de 8 meses.

Douglas teve alta do hospital, mas depois de alguns dias em casa teve que voltar. Com uma infecção urinária, ele está de volta ao Miguel Couto e agora espera se recuperar para uma outra árdua etapa: fazer reabilitação para tentar voltar a andar ou se adaptar a uma cadeira de rodas.

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