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Deputado que dividiu reunião com PCC se diz magoado com PT

POR RODRIGO RODRIGUES- Terra Magazine
Figura até então apagada do PT em São Paulo, o deputado estadual Luiz Moura ganhou os holofotes há três semanas após o Governo de São Paulo divulgar que ele teria participado de uma reunião na cooperativa de vans Transcooper, na Zona Leste da capital – onde três supostos integrantes do PCC estavam presentes.
A reunião, segundo o deputado, era composta de mais de 50 pessoas. Ele nega que não tinha conhecimento prévio de que os participantes pertenciam a qualquer organização criminosa e afirma que estava no encontro apenas para mediar conflitos entre os trabalhadores da cooperativa, que ameaçavam fazer greve.
Pelo sim ou pelo não – como é ano eleitoral – o PT resolveu pressionar o deputado a deixar o partido, mesmo sem um inquérito formal aberto contra ele na Justiça.
Na reunião desta segunda-feira (02), a executiva do partido em São Paulo suspendeu o deputado por 60 dias e ameaça expulsá-lo da legenda, tirando o direito dele de concorrer à reeleição no próximo pleito, caso o processo no Conselho de Ética da sigla não convença os petistas da inocência do parlamentar.
Em entrevista exclusiva ao Terra Magazine, Luiz Moura se diz vítima de discriminação da imprensa e dos próprios petistas, por conta de uma condenação por roubo de R$ 2,4 mil a um supermercado de Ilhota, em Santa Catarina, ocorrida em 1991 – quando o parlamentar tinha 19 anos de idade.
Hoje com 42 anos, Moura diz que o crime aconteceu devido a um tumultuado passado com uso de drogas, mas revela que já está cansado de pagar pelos erros da juventude:
“Não existe prisão perpétua no Brasil e as minhas dívidas com a Justiça foram solucionadas (…) O PT se baseia nos erros que cometi no passado para me castigar e punir, exatamente como a imprensa faz”, alega o parlamentar.
Sobre o misterioso patrimônio de R$ 5,1 milhões que ele apresentou na Justiça, mesmo tendo declarado pobreza em 2005 para se livrar de vez da acusação criminal, o deputado do PT diz que se trata de uma empresa falida, da qual alega já não fazer parte desde 2010.
“Eu nunca tive esse patrimônio todo. O que eu tinha era uma empresa falida [a Happy Play Tour], que nós adquirimos sem pagar nada por ela. Era uma empresa falida, que não tinha patrimônio na época que a prefeita Marta reorganizou as empresas de transporte público na cidade de São Paulo. Saí dela em 2010 e até então ela não tinha sequer um carrinho de pipoca no nome da empresa”, justifica o parlamentar paulista.
Após a decisão do PT de afastá-lo e submetê-lo ao conselho de ética do partido, Luiz Moura se diz muito magoado com os integrantes da executiva estadual, especialmente o presidente Emídio de Souza, que é acusado por ele de tomar a decisão de puní-lo unilateralmente.
Confira a entrevista completa:
O que achou da decisão do PT de suspender o senhor por 60 dias?
Foi uma decisão precipitada, discriminatória e autoritária do partido. Fui na reunião da Executiva hoje de manhã e apresentei a minha defesa, mas eles sequer levaram em consideração o que eu disse. Foi uma decisão preconceituosa, tomada já na semana passada por um presidente que parece um trator.
Como assim, decisão tomada na semana passada?
Já na semana passada o presidente do partido [Emídio de Souza] me procurou, pedindo para eu me desfiliar do partido e disse que iria me suspender. Fui na reunião de hoje já sabendo do resultado, porque também sou democrático. Mas a reunião foi só pra respaldar uma decisão que ele sozinho já tinha tomado.
Por que o senhor acha que o Emídio tomou essa decisão sozinho?
Não sei o motivo. Ele é uma pessoa autoritária por natureza, desde os tempos que foi prefeito de Osasco. Não sei com quantos processos ele saiu da Prefeitura de Osasco, mas eu posso te garantir que sou ficha limpa. Garanto a qualquer um.
Como o senhor se sente sendo forçado pelo PT a pedir desfiliação do partido?  
Estou me sentido traído. É uma decisão injusta. Não fui a nenhuma reunião de crime organizado, nem sabia que lá tinha membros do PCC. Fiz uma discussão dentro de uma categoria, numa entidade que presta serviço público para a cidade. Não existe essa história de reunião do PCC coisa nenhuma. Era uma reunião de lideranças de motoristas e cobradores de ônibus, que estavam em estado de greve. E como parlamentar próximo ao setor, pediram ajuda para eu intermediar o conflito.
Então, por que o senhor está sendo alvo agora de processo no Conselho de Ética do PT?
Estou sendo vítima do meu passado. Por isso que digo que é uma decisão discriminatória. Não existe nenhum indiciamento meu. Não existe processo na Justiça, não existe investigação contra mim. O PT se baseia nos erros que cometi no passado para me castigar e punir, exatamente como a imprensa faz. Esse não é o partido que conheci, que defendia a dignidade humana, os Direitos Humanos e a reinserção dos indivíduos na sociedade. Acho que o PT está traindo as raízes do partido. Não foi uma sigla construída para a elite. Foi um partido construído para ajudar os menos favorecidos, a dignidade da pessoa humana. Não interessava se era uma pessoa que passou pela prisão. O que interessava antes para o partido era a pessoa se ressocializar, que as pessoas tivessem outra condição de vida depois da prisão. Mas não foi essa a decisão que eles tomaram. Não foi a decisão baseada nesses preceitos. Cabe a mim respeitar, mas com muita indignação.
O que foi discutido nessa reunião que o senhor participou?
Existia um TAC (Termo de Ajustamento de Conduta) do Ministério Público com a categoria dos motoristas e cobradores de ônibus, pra discutir o reajuste e não ter greve na cidade de São Paulo. Estava lá tratando de uma questão para ajudar a população e para prestar um serviço para os paulistanos, no objetivo de não ter greve na Zona Leste. E de fato não teve. Foi a única região que não teve greve nas últimas paralisações. Prestando um serviço, estou agora sendo acusado de um crime que não existe e nunca vai existir. Que terminou com essa punição irresponsável que o partido me deu.
E esses três supostos integrantes do PCC fazem parte da tal cooperativa ?
Não conheço todas as pessoas que estavam lá. O que falaram é de um tal de ‘Carlinhos Alfaiate’, que disseram que ele era assaltante de banco e do PCC. Fui checar agora o histórico dele. E ele só tem uma condenação nos anos noventa. Mas de qualquer forma, não sabia desse histórico até então e agora querem ligar a imagem dele na minha.
Como se deu a abordagem policial nessa reunião, então?
Tinha cerca de 50 pessoas na reunião. A polícia chegou, pediu licença para entrar. Nós autorizamos inclusive a olhar os carros estacionados. Era local público. Não havia o que esconder. Os policiais disseram: “não é nada com o senhor, deputado”. Fui embora depois, cuidar da minha vida. Não fui nem em delegacia nenhuma. Quando chegaram no DP, me parece que os diretores da cooperativa relataram ao delegado o motivo da reunião – que inclusive consta no boletim de ocorrências. É o mesmo que te narrei. Quando os diretores estavam na rua, o delegado chamou de volta dizendo que tinha um problema político e que precisava constar o meu nome no boletim de ocorrências. E tiveram que fazer um segundo boletim, de natureza não criminal.
O governo de São Paulo declarou que o senhor chegou a ser preso nessa reunião. É isso mesmo?
Gostaria de deixar claro a irresponsabilidade do secretário do governo Alckmin, Márcio Aith – Subsecretário de Comunicação. Ele divulgou o meu nome, dizendo que eu tinha sido conduzido pela força policial até uma delegacia, sendo que nunca fui convocado ou convidado para ir em delegacia alguma. Foi uma divulgação absurda, que gerou tudo isso. Não sei que interesse ele tinha de fato. É uma irresponsabilidade e um crime, que acabou agora culminando com a minha suspensão do partido. É uma leviandade de um chefe de Estado que deveria tomar muito cuidado com o que divulga.
O senhor pretende processar o Márcio Aith? 
Com certeza. Já estou constituindo advogados na área criminal e cível para ver essa questão dentro do partido e também cobrar de quem divulgou informações falsas contra mim. Quem não deve não teme. Até hoje não há nada contra minha pessoa. Não tenho nenhum processo, sou ficha limpa. A nossa Constituição Federal nos dá o direito da ressocialização. O crime que cometi foi há muitos anos atrás. Inclusive havia um acórdão no Tribunal de Justiça proibindo a divulgação desse meu passado, mas a lei só vale para o lado mais fraco. Para o lado da imprensa não vale. Divulgaram algo sem medir as conseqüências e responsabilidades. E agora fui discriminado por conta de quem divulgou esse processo.
O que o senhor pretende fazer agora?
Estou pensando ainda e vou consultar os meus advogados para ver se é possível tomar alguma medida judicial cabível. Não vou pedir desfiliação do partido e dar esse gosto para ele [Emídio de Souza], porque é capaz ainda dele pedir na Justiça o meu mandato.
Os jornais dizem que o senhor não tinha nenhum patrimônio, mas que agora tem R$5,1 milhões – R$4 milhões apenas numa empresa, a Happy Play Tour. Como o senhor explica essa evolução?
Eu nunca tive esse patrimônio todo. O que eu tinha era uma empresa falida, que nós adquirimos sem pagar nada por ela. Era uma empresa falida, que não tinha patrimônio na época que a prefeita Marta reorganizou as empresas de transporte público na cidade de São Paulo. Saí dela em 2010 e até então ela não tinha sequer um carrinho de pipoca no nome da empresa.
Mas é o que conta na declaração de bens do senhor na Receita e na Justiça Eleitoral, deputado… 
A empresa tinha papéis que resultariam na integralização de capital com papéis, notas promissórias ‘pró-soluto’ – que deveriam ser integralizadas apenas quando essa empresa começasse a gerar lucro. O que nunca ocorreu. Eram papéis fictícios. E papéis que eram da sociedade e não só meus. Era um capital fictício de R$ 4 milhões, que você é obrigado a declarar no Imposto de Renda. Inventaram essa história e colocaram como se fosse um patrimônio meu em espécie ou moeda, mas são papéis sem valor algum. Volto a dizer: é uma empresa que não teve sequer um carrinho de pipoca quando eu estava lá. É um vazamento seletivo para me prejudicar e prejudicar o PT.
O senhor ainda hoje é dono de alguma empresa na área de transporte?
Não, absolutamente nada.
A renda atual do senhor é oriunda apenas da atividade parlamentar?
Não. Tenho um posto de gasolina. Mas o meu patrimônio não chega a 15% do que estão colocando nos jornais.
O que aconteceu de fato na vida, que acabou levando você para a prisão? O senhor subtraiu mesmo um supermercado em Santa Catarina?
Foi um momento difícil na vida, uma época que cometi um crime porque usava drogas e fui parar na prisão. Foi uma fase muito difícil e rápida da juventude, que infelizmente me gerou um indiciamento. Mas não posso pagar o resto da vida. Não existe prisão perpétua no Brasil e as minhas dívidas com a Justiça foram solucionadas. Já estou pagando isso há muito tempo. E estou pagando demais até. É bom a sociedade ver aquilo que já fiz de bom, não o que fiz de ruim num passado distante. Hoje cuido de mais de 5 mil crianças entre jovens e adolescentes, dou palestras e orientação sobre drogas nos nossos projetos sociais. A parte da recuperação de um dependente químico ninguém vê.
O senhor acha que está sendo vítima de um processo no PT semelhante ao do deputado André Vargas? 
O André Vargas é diferente. Ele tinha uma relação de culpa que eu não tenho. Não existe nada ilícito, não existe prova, não existe inquérito ou processo. Absolutamente nada contra mim. O André Vargas tinha conversas e mensagens, que não cabe a mim julgar ele ou qualquer outro membro do partido. Cabe a mim apenas me defender daquilo que avalio como injusto, que é o que ocorre agora.
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