Coaracy Fonseca: o segredo de Prometeu

Coaracy Fonseca é promotor de Justiça A ira dos deuses pagãos contra Prometeu tinha como causa um SEGREDO, que o Titã, à custa do…

Coaracy Fonseca é promotor de Justiça

A ira dos deuses pagãos contra Prometeu tinha como causa um SEGREDO, que o Titã, à custa do próprio fígado, negava-se a revelar. A pena cruel e dolorosa nasceu da fúria de Júpiter que, em conclave, convenceu os seus pares sobre a necessidade do pungente martírio.

Ora, por que guardar um segredo, um simples fato dito em confiança a quem se estima merecedor(a) de fidelidade? Tal questão, que se perde na noite dos tempos, tomou conta do meu pensamento nesta manhã. Uma reflexão aparentemente banal, que nasceu do ócio do recesso junino.

No tempo em que vivemos, a revelação de um segredo pode ser um atalho preciso para a fama, mesmo que transitória, mas tão ansiada por alguns poucos cultores das denominadas redes sociais, cujas informações, em vários níveis, correm o mundo em fração de segundos, até o próximo tropel.

Nesse esforço de expressão, percebi que poderia seguir vários caminhos, desviando-me, inclusive, da Via Láctea. Trilha que me conduziria à essência da causa e, nesse exercício surreal, poderia tomar assento dentre os deuses, avaliar os autos, e esgrimir argumentos sobre a questão.

Decidi, no entanto, não alçar voo tão alto, mesmo que em pensamento.

O mito do Prometeu acorrentado, percebi, nunca teve tão em voga quanto no estágio em que vivemos. O Titã guardava um bom e crucial segredo para a humanidade, sobre a sua própria subsistência. Mas Júpiter, é possível admitir, parece haver, ainda uma vez, inundado a terra.

Os seres humanos (homem e mulher) vêm perdendo as qualidades e valores que lhes foram ensinados pelo Titã, em detrimento de si mesmo. O segredo de Prometeu, como se pode imaginar, não é um simples fato guardado a sete chaves. Representa, só por si, um amor genuíno à humanidade, que o fez renunciar a graça de Jove, que o libertaria do martírio.

Nisso consistia a sua vaidade.

Prometeu é um símbolo de resistência ao opressor, da luta por um ideal de vida digna que, infelizmente, é um valor que vem se fragmentando, em nome da buscar do prazer sem limites, mesmo que em detrimento do feixe de sonhos e ideais que nos trouxe até aqui, mas que parece se desmilinguir pela tibieza e corrosão do caráter, fenômeno tão bem exposto por Richard Sennett.

O mundo precisa, urgentemente, de Prometeus, nas mais diversas searas. Ainda será possível encontrá-los?

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