Carlos foi assassinado, o condenado está solto e tem muitos votos na campanha eleitoral

Este poderia ser mais um dos tantos crimes sem repercussão ou destaque nas páginas policiais. Porém, revelou a existência de um grupo de extermínio liderado pelo então vereador de Maceió, Luiz Pedro da Silva, ainda hoje um dos homens mais poderosos da periferia da capital. E objeto de disputa na classe política: é capaz de arrebanhar até 50 mil votos em conjuntos habitacionais que levam seu nome, um tesouro inestimável principalmente em uma eleição dura como a alagoana

Carlos Roberto Rocha Santos era servente de pedreiro quando, no dia 12 de agosto de 2004, quatro homens armados sequestraram ele de casa, na rua Nossa Senhora da Conceição, número 26, no bairro do Clima Bom, parte alta de Maceió.

Os homens disseram que o levariam para a Delegacia de Repressão às Drogas. Carlos Roberto nunca mais voltou para casa.

Este poderia ser mais um dos tantos crimes sem repercussão ou destaque nas páginas policiais. Porém, revelou a existência de um grupo de extermínio liderado pelo então vereador de Maceió, Luiz Pedro da Silva, ainda hoje um dos homens mais poderosos da periferia da capital. E objeto de disputa na classe política: é capaz de arrebanhar até 50 mil votos em conjuntos habitacionais que levam seu nome, um tesouro inestimável principalmente em uma eleição dura como a alagoana.

Quando Luiz Pedro pede votos para seus candidatos, moradores destes conjuntos (mais os parentes e “agregados”) acatam a quase-ordem.

E Luiz Pedro continua solto, mesmo condenado à prisão pelo crime e o processo parado no Tribunal de Justiça desde outubro do ano passado.

Pai da vítima virou herói

Não demorou muito. Quando Carlos Roberto foi assassinado, o pai dele, Sebastião Pereira dos Santos, começou uma saga em busca de Justiça. Lutou até o final da própria vida para colocar Luiz Pedro na cadeia. Ele morreu em 27 de junho de 2017, aos 78 anos, sem terminar sua missão.

Foram anos percorrendo órgãos públicos, com dois pedidos: que o Estado lhe entregasse o corpo do filho e o Luiz Pedro fosse julgado e condenado.

Seu Sebastião era figura bastante comum em protestos contra a violência e carregava, em cartazes, a foto do filho assassinado nas pedras do IML, trucidado pelas balas.

Quando Carlos Roberto foi sequestrado, seu corpo foi encaminhado ao Instituto Médico Legal Estácio de Lima, em Maceió. Mas, o corpo sumiu das pedras do instituto. Seu Sebastião conseguiu as fotos da autópsia do filho. Mandou ampliá-las. As imagens- chocantes- ajudaram a transformar aquele funcionário público do Detran em símbolo no combate à violência.

As fotos também pressionavam os órgãos públicos. Antes de morrer, seu Sebastião conversou comigo. Era 8 de maio de 2017. Ele comemorava decisão da Justiça Federal que proibia nomes de pessoas vivas em bens públicos. Luiz Pedro dava (e ainda dá) seu nome a escolas e conjunto habitacionais.

Na última conversa, seu Sebastião reclamava da demora para o desfecho do caso. Programava voltar para a porta do Tribunal de Justiça, em busca de respostas, e uma conversa com o procurador-Geral de Justiça, Alfredo Gaspar.

“O senhor veja: o cabra pegar 26 anos e 5 meses de prisão e sai pela porta da frente, sem nenhuma restrição para ele”, disse ele, por telefone. “Quero que Deus me dê mais alguns dias ou alguns anos de vida. Está nas mãos Dele. Depois que eu ver ele atrás das grades, nem que ele vá um, dois ou três dias, solta, tudo pode acontecer, mas quero ver ele atrás das grades. Isso eu vou ver com fé em Deus e com a ajuda dos amigos”.

Julgado, condenado à prisão e saída pela porta da frente do fórum

Luiz Pedro foi julgado pelo crime mais Adézio Rodrigues Nogueira e Laércio Pereira de Barros (executores, segundo a Justiça). Foram condenados em 24 de setembro de 2015. Luiz Pedro, autor intelectual, pegou 26 anos e 5 meses de prisão, mas saiu pela porta da frente do fórum do Barro Duro. Responde pelo crime em liberdade. Luiz Pedro recorreu ao TJ. E continua solto.

Do crime ao julgamento, foram 11 anos de espera. Neste período, Luiz Pedro terminou o mandato dele na Câmara, chegou a ser preso. E da prisão, com uma câmera de celular, gravou pedido de votos no guia eleitoral. Mesmo preso obteve registro de candidatura. Ganhou as eleições para deputado estadual. E foi solto para assumir a vaga na Casa de Tavares Bastos.

14 anos depois do assassinato do servente de pedreiro, o filho do seu Sebastião virou mais um nas estatísticas da impunidade. É um crime sem castigo. Coisa bastante comum em Alagoas.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *