Sou cotista, negra e Justiça decidiu: não posso terminar meu curso na Ufal

Érica Rocha- estudante de Relações Públicas da UFAL Hoje é um dia daqueles que a gente acorda pra matar mais um leão. Sou cotista,…

Érica Rocha- estudante de Relações Públicas da UFAL

Hoje é um dia daqueles que a gente acorda pra matar mais um leão.

Sou cotista, mulher negra e periférica, ingressei na universidade através do sistema de cotas. Ao contrário do que o senso comum e os racistas privilegiados defendem, sou uma boa aluna, assim como vários outros colegas cotistas, dos quais eu me orgulho muito.

Há aproximadamente 3 anos, fui classificada para a tão sonhada vaga para o curso de Relações Públicas na UFAL.

Como eu havia concluído parte do meu ensino médio, como bolsista integral no modelo EJA em um colégio cenecista em Salvador – minha cidade natal, deduzi que se as cotas são para atender a negros e pobres e que eu, poderia fazer parte sim desse programa, eu tinha todos os pré-requisitos.

No dia de confirmação da matrícula tive um susto, a atendente informou que minha matrícula não poderia ser confirmada, e que as cotas eram exclusivamente para quem veio de escolas públicas, achei injusto e recorri a “justiça”.

Aleguei que não estudei na condição de aluno pagante, e que, pelo contrário, na verdade, eu fui beneficiada por um programa social voltado para jovens e adultos que precisavam trabalhar e estudar e não tiveram a oportunidade de concluir o nível médio ainda na adolescência.

Corri atrás, vi na internet que tinham várias jurisprudências de situações similares, fui na Defensoria Pública da União, consegui através de processo judicial uma liminar favorável ao meu direito de estudar.

Desde então, sou uma estudante empenhada no curso, e que busca sempre me dedicar ao máximo aos assuntos acadêmicos.

Só que a alegria de pobre e negro no Brasil dura pouco, eles querem nos escravizar novamente. E, infelizmente, hoje fui surpreendida por uma ligação da Defensoria Pública, era uma informação a respeito do processo, achei estranho, imaginava que tudo estava resolvido e finalizado.

Foi quando a funcionária da Defensoria me explicou que alguns juízes (provavelmente brancos, como a maioria dentro da “justiça” no Brasil) decidiram que eu não posso ser cotista, porque apesar de ter estudado com bolsa 100% em uma instituição que atende jovens e adultos em vulnerabilidade social, não foi em escola pública.

E agora eu não sei se posso recorrer e se essa “justiça” vai me amparar e fazer valer o meu direito a educação, o que eu sei, é que já estou no 6° período do curso, faltam apenas 3 períodos para concluir e finalmente me formar uma profissional de Relações Públicas como sempre sonhei.

E se esses racistas estão achando que vão me fazer desistir estão enganados: o ódio deles não vai me atingir, a minha história é de resistência, sou neta de índio e remanescentes quilombolas, duríssima na queda, eu vou lutar pelo meu diploma, mas se essa justiça golpista me boicotar, vou continuar frequentando a universidade e assistindo minhas aulas, porque para mim, mais importante que o canudo é o conhecimento, e esse direito ninguém vai me tomar, racista nenhum vai me privar do meu direito a educação, avante irmãos pretos, é possível sim, a luta não vai parar.

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