Coaracy Fonseca: A nossa boa vida online

Coaracy Fonseca- é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça A construção da personalidade nos novos tempos de negócios e relações on line…

Coaracy Fonseca- é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça

A construção da personalidade nos novos tempos de negócios e relações on line tem rendido milhares de publicações, que ensinam desde a arte de fazer amigos, vencer os obstáculos das enigmáticas entrevistas de trabalho e até ficar rico, seguindo certas orientações. É a formação do novo homem, moderno e aberto aos avanços tecnológicos.

Tal velocidade das mudanças foi muito bem delineada, sob o enfoque econômico, em livro recente de Alvin e Heidi Toffler, quando avaliaram que “uma economia avançada precisa também de uma sociedade também avançada para sustentá-la, pois toda economia é produto da sociedade na qual está inserida e depende de suas instituições-chave”.

De fato, o capital é inimigo da burocracia, da morosidade e de qualquer tipo de barreira, é um fato sociológico. No entanto, da mesma forma que ele chega, raspa o tacho, sai. É um ser inodoro e indolor. A riqueza é sempre bem-vinda, desde que não destrua os valores do humanismo, a nossa espiritualidade e que seja distribuída com justiça, detalhe desimportante para os importantes adeptos do darwinismo social. Para estes a lei do mais forte é sempre a melhor. Olvidam que, na vida, nem todos são dotados, pela loteria natural, das mesmas habilidades.

Não podemos descurar da formação do elemento humano e, para isso, não estou a defender o retorno à Paideia, como recurso pedagógico.

Em verdade, as referências comportamentais parecem que há muito se perderam e com elas boa parte dos sentimentos sólidos, quase tudo tem se tornado líquido e fluido demais. Não se trata de saudosismo. A mesma tecnologia que nos entretém nas famosas redes sociais e que faz circular milhões em dinheiro invisível, para o desfrute de poucos, é a mesma que nos priva a cada dia do contato pele a pele, do sorriso rosto a rosto e da nossa capacidade de criar e produzir como verdadeiros artesãos, e que retira o trabalho de milhares de pessoas a cada dia.

Talvez, seja uma mera impressão, de minha parte, de que o primado da economia sobre a política (vista como arte de administrar os problemas e vicissitudes humanas, e não como a técnica de enriquecer sem fazer esforço) criará no futuro, não muito distante, uma legião de famintos e desesperados. De órfãos de si mesmos e dos outros. A Europa, de há muito, tem sentido os reflexos dessa realidade. A fome e a miséria espiritual não só bateram, mas, efetivamente, irromperam porta adentro.

Mas um grande perigo que se apresenta é a campanha aparentemente inocente do “politicamente correto”, que traz sempre por detrás pretensões nem sempre tão ingênuas de poder. Se o Poeta Vinícius de Moraes estivesse vivo talvez fosse execrado pelas redes sociais, por alguns de seus ditos, ou não.

E o Tim Maia..

Talvez para eles fosse aplicada a licença poética.

O que fazer diante de tudo isso? O tempo não volta atrás, é verdade. Mas é possível resgatar parte de alguns valores, que parecem ter-se perdido. O contato social efetivo, e não apenas o pular embalado por um barulho ensurdecedor, que não permite a troca de palavras; a reflexão sobre a vida; a preocupação com o outro; o sentido da família, nosso maior sistema de segurança social; o resgate das utopias; a consolidação de grandes amizades; a preocupação com as nossas lideranças, das quais devemos perscrutar a visão de mundo, o seu ideário acerca da relação entre o capital e o trabalho.

Tudo isso, para evitar a formação de um eu ainda mais fragmentado, bem definido por Salman Rushdie como “um edifício instável que construímos com raspas, dogmas, mágoas da infância, artigos de jornal, observações casuais, velhos filmes, pequenas vitórias, pessoas odiadas, pessoas amadas”.

Os tempos pós-modernos apartaram de nós os conselhos simples dos nossos pais e avós, que martelavam em nossas mentes nos momentos de dificuldade, eles foram substituídos pelo doutor Google, um ser bastante impessoal.

Sempre há tempo de reavaliar a caminhada, de perseguir novos objetivos, mas sem perder de vista, como bem afirmou um grande autor, na voz do irrequieto Professor Caritat: que “sempre que se persegue um ideal, é desastroso perder de vista todos os outros. Fazer isso é fanatismo”. E digo eu: não podemos abandonar, jamais, a nossa capacidade de aprender e seguir em frente, sem esquecermos o legado dos ancestrais.

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