Macleim: Pés no Chão de Casa

Pés em Casa tem os pés no chão, consciente o bastante para saber que, nessa praia, a roda já foi inventada

Texto publicado neste sábado, 1, pelo Caderno b! do jornal Gazeta de Alagoas

Houve um tempo em que me especializei na criação de jingles. Pior, jingles políticos! Não carrego esse tempo exatamente como uma mácula, pois, propositadamente, criava pensando na possibilidade do descolamento da música para a arte, como criação artística, e não como artefato indissociável do objeto fim. Por isso, não me arrependo do que fiz e foi assim que conheci Fernanda Guimarães, bem no comecinho da sua carreira, quando foi arregimentada pelo Almir Medeiros, como solista de mais um jingle de forró, para um desses políticos que não merecia sequer uma nota do seu belo canto. Fiquei impressionado com o talento da garota e sua desenvoltura em um gênero musical que exige malemolência e traquejo. De lá prá cá, só tem aumentado, em proporções geométricas, o meu encantamento pela carreira que a Fernanda vem construindo, com uma versatilidade e domínio de estilos que chegam a surpresas inesperadas, como quando a vi, tal qual uma verdadeira diva, cantando alguns dos mais difíceis standers do jazz, numa rara apresentação no saudoso Trilha do Mar.

Agora, com o lançamento do EP Pés em Casa, Fernanda Guimarães prioriza sua musicalidade arrebatadora para a música regional nordestina, num momento inteiramente propício, onde o Nordeste, com pujança e inteligência, politicamente, mostrou-se lúcido e digno de respeito e reconhecimento históricos. Coincidência ou não, de alguma maneira, seja pelo viés artístico ou apenas conjectural, Fernanda Guimarães parece ratificar esse merecimento, ao voltar-se para a nossa música regional, num afago carinhoso e leve, com um quê de gratidão e reverência, evidentes pelo esmero desse seu mais recente trabalho.

PARCERIAS
Suponho que, para uma mudança de rota tão significativa na proposta musical que ela vinha apresentando, desde o seu primeiro disco Verbo Livre, Fernanda Guimarães tenha passado pelo dilema de encarar esse projeto unilateralmente ou dividi-lo com alguém, cuja parceria fosse significativa o bastante para, ao mesmo tempo, partilhar da colheita ou aridez da nossa latitude. Não mais no campo das suposições e conjecturas, ela encontrou a parceria capaz de instigar sua porção compositora a encarar qualquer grau de dificuldade criativa. E, assim, Pés em Casa marca a estreia de Talita Quirino como letrista de seis das oito músicas do EP.

Ocorre que, quando desprovidas da construção musical, percebe-se que as letras da Talita não tiveram a intenção de facilitar a vida da compositora e parceira, pois a estrutura textual nem sempre tem a métrica melódica, que seria comum em letras pensadas para o amálgama com melodia e ritmo. Daí, o trabalho de composição musical da Fernanda ganhar em significado, relevância e eficácia, pois essas questões foram resolvidas com absoluto louvor! As letras da Talita são de uma singeleza ribeirinha, e tratam de uma saudade flutuante entre o partir e o voltar, com uma objetividade poética que pode ser entendida como os pés descalços de quem, em casa, fala versos assim: “Quero morar numa casinha / No alto de Ipioca / Sem luxo algum / Só um quintal pra namorar.”

No encarte do belo design gráfico em tons pastéis, assinado por Flávia Correia, que nos remete ao solo de terra batida pelas marcas do tempo e do sol, Fernanda Guimarães escreveu: “Pés em Casa, feito com zelo, farinha e tempero alagoanos, para os ouvidos e sentidos de todos.” E é aí, que entra outras parcerias importantes, para dar pleno sentido ao que registrou Fernanda. Afinal, trata-se de um trabalho onde, dos cinco sentidos, a audição é o mais significativo; onde os músicos escolhidos fazem toda a diferença, e o resultado final tem tudo a ver com essa escolha! O bom é que, nesse quesito, a nossa cena não oferece dificuldade alguma, pelo contrário, não há seca, pois a fonte é inesgotável e Fernanda soube cercar-se do que há de melhor nessa seara.

PROTAGONISMOS E CONCEITOS
Em decorrência, temos um disco regionalíssimo, recheado de xotes, baiões e forrós ao estilo Guimarães, porém, com uma sonoridade bem peculiar, onde encontraremos um equilíbrio perfeito entre o que sugere uma pegada pé de serra e o que se tornou prosaico na renovação comercial (nem sempre satisfatória) da música regional nordestina. Todos os músicos assumem seu protagonismo na exata medida do que o trabalho pede ou estabelece. Nem mesmo nomes consagrados nacionalmente, como Carlos Bala (bateria) e Arthur Maia (baixo fretless), fogem a esse critério, pois existe um diálogo muitíssimo bem-alinhavado entre todos que atuaram talentosamente em Pés em Casa.

Esse EP é leve como um flautista vegetariano e deve ser degustado de portas e janelas abertas, para que o vento propague-o aqui e alhures! Particularmente, costumo ouvir discos no trânsito, com os vidros do carro arriados e o vento como convidado à fruição. Foi nesse contexto, que percebi um detalhe de mixagem, ou o que pode ser um conceito. E conceito artístico é como lei: respeita-se! O fato é que, em determinados momentos, onde a tessitura do canto atua em regiões mais baixas (é o caso da faixa 6, Negra Flor), a voz adentra à base e requer um pouco mais de atenção ao canto. Gosto desse conceito de mixagem, onde a voz fica mais integrada à base instrumental e fora dos padrões comerciais vigentes.

Pés em Casa tem os pés no chão, consciente o bastante para saber que, nessa praia, a roda já foi inventada. Por isso, Fernanda Guimarães teve sabedoria e maturidade suficientes, para não pretender reinventá-la. Assim, não correu riscos desnecessários e soube pisar firme em solo fértil e iluminado, onde florescerá por ter raízes!

SERVIÇO
Pés em Casa, Fernanda Guimarães
Disco físico: Pelo site www.sympla.com/pesemcasa
Preço: R$ 15
Plataformas digitais: Deezer, Spotify, Googleplay, Apple Music, iTunes Store, Tidal e XBox

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