Trabalho rebelde para jovens obedientes

Para tecer uma reflexão sobre a iniciação do jovem ao mercado de trabalho procurarei posicionar minha atenção aos aspectos subjetivos desse processo. Emoções e…

Para tecer uma reflexão sobre a iniciação do jovem ao mercado de trabalho procurarei posicionar minha atenção aos aspectos subjetivos desse processo. Emoções e expectativas sobrepõem imagens e sonhos criados no mundo infantil quando uma nova formação mental se cria no ajustamento ao mundo árduo do trabalho. Uma multidão de jovens é compelida à uma saga competitiva, reavivando e tornando voraz os ditames do mercado, subjetivando-os.

Como em um espaço militar, jovens são treinados, lapidados para “comportamentos assertivos” e para dar contornos às suas fantasias de sucesso que, padronizadas, são estimuladas a formar imagens de um futuro onde ternos e gravatas, roupas acinzentadas e sapatos pretos farão parte do dia a dia empresarial, circundado de holofotes emocionais: os outros serão parte de um empreendimento onde ele coordena, com sua assertividade, seu controle e sua capacidade de adequação ao novo. Será o que todos se esforçam para ser: sempre sorridentes, os braços cruzados passando firmeza e segurança, os olhos no horizonte, buscando o devir, as ideias e a inovação empreendedora sempre a frente.

O espaço para a criatividade sempre é moldado pelo ideal do mercado. As imagens mentais, carregadas de afetividade, movimentam o corpo para os braços do sucesso, lá na frente, distante, cheio de obstáculos e clivagens. Para o jovem, há sempre uma luz no fim do túnel, afinal de contas, “a cabecinha está fresca, sem problemas”. O cotidiano, marcado pela dificuldade, é algo a ser superado com uma motivação infinita, cheio de estratégia de autogestão, cronogramas, tabelas, metas a serem cumpridas, tarefas e exercícios para melhora no desempenho. Ele, o jovem, é dono de suas possibilidades de sucesso, é o único e soberano de suas vontades e qualquer desvio é olhado com repúdio pelas organizações que o cercam: “infelizmente não atende as expectativas da empresa, mas não desanime, tenho certeza que com mais motivação, mais criatividade e assertividade você vai conseguir uma vaga”.

Expectativas para o futuro é o que sobra, não há espaço e tempo para cansaço. É difícil, todos sabem, todos passaram por isso uma vez na vida. É obrigação do jovem manter-se na linha. Uma linha tênue entre o certo para o mundo e o certo para si. Criatividade? Apenas para as empresas. Sucesso? Apenas atrelado a ganhos materiais, formações, capacitações e qualificações. “A vida é assim!”

Por sorte, não precisa ser.

O desvio do corpo é um desvio subjetivo

No meio do caminho que precisa ser trilhado por todos na estrada para o mercado de trabalho, entretanto, há os que, corajosamente, dispensam os valores sedutores do mercado. Moças e rapazes que exercem certa autonomia, não sobre o mundo, mas sobre si. O uso do corpo é uma estratégia para a emancipação das leis exteriores a ele. Afinal de contas, todo caminho é trilhado pelo corpo e é com o corpo que todos nós procuramos brechas para passar, é com as mãos que cavamos e com os olhos que vemos.

Pelo caminho, todo desvio só é possível pelo corpo, pela materialidade que nos une a sociedade. Conscientes disso, alguns jovens se expressam, reúnem forças físicas e emocionais para festejar na estrada. Para essa juventude, quem não tem cão, caça com gato e ainda sobra afeto para o animalzinho. O toque, o abraço e a capacidade de divertir-se é a rebeldia sadia que se pode encontrar para um desenvolvimento seguro. O afeto, a capacidade de escuta e de solidariedade é o compromisso que o corpo deve ter com outros corpos. Aglomerações e multidões serão vistas pelo caminho, mas não necessariamente precisam ter a morbidez de uma competitividade extrema, de um delírio persecutório.

Descaracterizar a juventude tem sido uma das estratégias de cooptação das subjetividades. Introjetar valores empresariais nas relações, o controle dos movimentos da personalidade, a incapacitação dos fluxos emocionais sadios, a afetividade, a confiança, estão dando lugar à um sofrimento com o mundo. Estar com o mundo tem sido cada vez mais difícil e a capacidade de adaptação é usada para fechar ou abrir caminhos, a juventude máquina precisa funcionar corretamente. O corpo, contudo, pisa em diferentes terrenos. É sensível a forças externas e internas. Na ambiguidade dessas forças são traçadas novas rotas, outros caminhos para outros sucessos possíveis.

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