(Re)Laços da solitude

As relações humanas são problemáticas. Constatamos em nosso dia a dia entres as conversas com colegas de trabalho, com a família e com pessoas…

As relações humanas são problemáticas. Constatamos em nosso dia a dia entres as conversas com colegas de trabalho, com a família e com pessoas que encontramos nas ruas. Relações humanas são conflituosas e instáveis devido a variados fatores, como por exemplo as diferenças na personalidade, nas crenças e valores individuais e para onde nossa afetividade se movimenta num cotidiano complexo e difícil.

Em um mundo onde o humano se desvaloriza paulatinamente, expressões como “lidar com o ser humano é horrível”, “trabalhar com o ser humano é uma coisa muito complicada”, “prefiro me relacionar com animais de estimação do que com seres humanos” são cada vez mais comuns. Se posicionar dessa maneira é reflexo de uma sociedade onde lidar com a diferença e a diferenciação é marcada por violência e agressividade.

A diferença se tornou motivo de agressão desmedida e lidar com ela tem gerado emoções como o medo e a raiva. O medo, pois a diferença nos mobiliza internamente a um processo de elaboração, de reconstrução da realidade e isso requer o desmonte de modelos estáveis de percepção do mundo. A raiva, pois a impossibilidade de manter estes modelos estáveis de percepção empurra-nos contra o muro da realidade, uma realidade marcada por sujeitos que interpelam a nossa subjetividade à elaboração.

O processo de diferenciação é feito em conjunto com o outro, afinal de contas, eu só me reconheço como eu pois sou diferente do outro. E o outro, essa instância sempre fora do nosso controle, nos interroga desestabilizando o que somos. Quem é você diante da infinidade de outros no dia a dia? Por essa razão, talvez, é que a impaciência com o outro tem se infiltrado como um gás nas nossas relações. Os outros são o problema e nós estamos sempre subjugados a ação do outro, não procuramos estar com o outro na ação, apenas atribuímos ao outro o que deve ser feito e ele não faz, o que deveria ser pensado e ele não pensa. Por que saímos isentos de toda e qualquer ação que o outro pratica? Não lutamos tanto para sermos sujeitos da nossa vida? Por qual razão nos assujeitamos ao outro?

Em meio a todos esses processos, o mais fácil tem sido a desistência e a desesperança no humano. Mas não se trata do outro, se trata de nós mesmo e da dificuldade que temos em alargar nossos horizontes, de ir além das aparências. Idealizamos o outro, não escutamos o outro. A realidade do outro é medida através da discussão, da troca de perspectivas entre dois sujeitos que atuam. Juntos, agimos. E somos responsáveis por nossas ações em conjunto.

A recusa ao outro vem do sentimento de invencibilidade e inexorabilidade da individualidade, que é frágil a partir do momento em que precisamos fluir com o outro, através dele e com ele. Não há crescimento, avanço nas relações, sem nos deixarmos de lado momentaneamente e nos colocarmos no lugar do outro. Certo que são perspectivas e percepções diferentes, mas não podemos negar o fato de que juntas atuam sobre a realidade e construíram o que se consolida hoje.

De fato, alargaram-se as perspectivas das relações humanas com o advento das redes sociais, do telefone celular e das mídias digitais em geral. Mas será que estamos nos atentando a qualidade das relações que se estabelecem dentro e fora desses ambientes? Procuraremos estar no mundo com o outro e atuar junto com ele ou tiraremos da reta nossa responsabilidade e declararemos guerra às relações humanas?

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