Por que ainda vivemos sob ataque?

Nossas vontades se desdobram em ações sorrateiras e inesperadas. Todo ideal de cunho civilizatório cai por terra ao percebermos nossa animalidade latente. Os recentes ataques…

Nossas vontades se desdobram em ações sorrateiras e inesperadas. Todo ideal de cunho civilizatório cai por terra ao percebermos nossa animalidade latente. Os recentes ataques aos índios no Maranhão e aos camponeses no Mato Grosso revelam muito sobre o comportamento violento do ser humano. Nos controlamos para nos disfarçar, todavia por trás desse aparente controle encontra-se nossa animalidade.

O filósofo Nietzsche em seu livro Aurora: Pensamentos sobre os Preconceitos Morais escreve, no texto Os animais e a moral, que ao nos refinarmos às práticas exigidas pela sociedade, ao nos inserir na “ordem”, por trás de todas essas amáveis precauções civilizadas, queremos escapar de nossos perseguidores e sermos favorecidos na busca de nossa presa.

Ficamos estarrecidos com o grau de violência de alguns acontecimentos do mundo, mas muitas vezes simpatizamos com eles. Não se trata de natureza humana, mas da existência de um dispositivo social de perpetuação desse repertório comportamental. O ataque se transformou em típico da humanidade no desenrolar do processo histórico pela naturalização da agressividade como sobrevivência.

A violência, como processo dinâmico e que emerge da vida em sociedade, nos direciona a pensar na complexidade das nossas relações e de que forma passamos a corroborar com a barbárie, aceitá-la e até almejá-la. A que foças estamos sendo submetidos a ponto de sermos tentados à agressão? De fato, ainda viveremos sob ataque se não nos despirmos das nossas “amadas precauções civilizadas” e colocarmos no seio da vida pública um debate sério sobre o comportamento violento que vise a redução do mesmo.

A crueldade disfarçada

A cientista social Ana Cláudia Laurindo, escritora do blog A Melhor Política e do recém publicado livro 200 anos de Alagoas: Análise Sócioantropológica, no texto Estratégias de cooptação da alma alheia: sobrevivência, pontua que aquilo que temos permissão social para sermos impacta sobre a nossa identidade, e esta, por sua vez, se torna definidora de atitudes e comportamentos.

Esse pensamento nos redireciona ao âmbito da ação em sociedade, que mobiliza e perpetua representações, o dinamismo da legitimação, ou não, do poder e da violência, tornando banal a crueldade disfarçando-a com pressupostos naturalizantes. Por isso, procuramos justificar crimes, mas desde que sejam executados pelos “escolhidos”, os que receberam aval comum para praticá-los.

A construção social da violência é percebida quando direcionamos nosso olhar ao fenômeno com a intenção de entender para onde (e para quem) se direciona a agressividade. A partir desse movimento se torna impossível ignorar que somos agentes, seres imersos num contexto global de violação, segregação e marginalização.

Para desestabilizar a aparente natureza de nossa violência precisamos esmiuçar as práticas (discursivas ou não) do cotidiano e reconhecer que nossas ações não são tão inofensivas quanto parecem. Não é uma tarefa fácil, pois o que é típico da humanidade certamente nos perpassa e procuramos nos ancorar nos constructos que se cristalizaram ao longo do tempo. Temos responsabilidade por aquilo que reproduzimos, destarte, uma pergunta assombrosa paira no ar: temos consciência do que reproduzimos?

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