Para que estudar se o futuro é a morte?

Há poucos meses entrei em uma escola pública para fazer a prova de um concurso. Ao entrar me deparei com um espaço colorido e…

Há poucos meses entrei em uma escola pública para fazer a prova de um concurso. Ao entrar me deparei com um espaço colorido e regido por uma diversidade de frases aparentemente escritas pelos alunos que ali estudavam. Contudo, o que estava estampado na entrada da escola como um símbolo de diversidade mascarava o que, no interior de uma das salas de aula, gritava de forma avassaladora. No teto da sala de aula estava escrito, de forma rústica, mas não menos expressiva, a frase: “Estudar para que se o futuro é a morte?”. A realidade tomou-me em variadas reflexões.

O que há de surpreendente na frase é que a escola, que deveria ser um lugar de construção de noções e subsídios para o enfrentamento da realidade difícil que vivemos, se mostrou ineficaz em construir essas noções mostrando que o peso da realidade social, política e econômica vigente deteriora as possibilidades e a subversão da vala comum a qual destinamos nossos estudantes pobres e periféricos.

O eixo da frase gira em torno da desesperança e do desamparo. Não há escapatória em um mundo que marginaliza, exclui, oprime e solapa os sonhos da juventude. O que há de errado com o mundo? Certamente não me atrevo a responder. Tal complexidade está fora da minha alçada. Mas uma coisa podemos compreender nesta frase: há algo errado e não estamos dando a devida atenção ao erro.

Juventude e representação do futuro

A escola é uma instituição que perpassa a subjetividade infantil e adolescente deixando sua marca até a fase adulta. A formação escolar comporta as normas sociais e os padrões a serem seguidos a fim de um “futuro promissor”, aquilo que se almeja socialmente. Obviamente nada é tão simples quanto parece. A imagem de quem alcança o “futuro promissor” não é democrática e com toda certeza não vem da periferia.

Por outro lado, as condições para uma vida de qualidade nem sempre são garantidas, exigindo da juventude uma façanha degradante e insustentável. Estudar é muito mais penoso quando não se tem o apoio da família ou quando faltam condições para a permanência na escola ou na universidade. O conflito entre a imagem (representação) e a realidade (condições materiais) é o centro de toda desesperança e de todo desamparo presentes na frase que deu origem a esse texto.

Todo o conjunto de forças sociais que deram vida ao conteúdo da representação do “futuro promissor” gera o vazio no ato de estudar. O futuro, pensado como consequência do presente, desperta uma gama de incertezas e angústias: não podemos alcançar tudo que nos é dado como meta e não somos capazes de satisfazer nosso meio social e o mercado de trabalho se não nos satisfazermos enquanto sujeito. A juventude é apenas o futuro da nação ou também o futuro de si mesma e de seus desejos e afetos?

A escuta como caminho

Se pensarmos no sujeito que escreveu a frase no teto da escola e em seus desejos vemos uma clara vontade de se expressar, um desejo de ser ouvido.

A escuta não está restrita ao âmbito do diálogo comum mas refere-se a diferentes situações do cotidiano, seja uma música, um comentário ou uma frase escrita em um muro. Escutar nos direciona à ação social, à sensibilidade e à empatia.

Escutar é reconhecer que algo existe e possibilitar sua expressão. Algo nas escolas precisa ser ouvido e é reflexo dos valores que construímos enquanto sociedade e da falta de amparo político e social das regiões periféricas e pobres da nossa cidade.

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