O sucesso inexorável

O sucesso inexorável Recentemente pude observar uma característica aterradora em como vemos a motivação e a positividade. Muitas vezes temos que sorrir, esbanjar uma…

O sucesso inexorável

Recentemente pude observar uma característica aterradora em como vemos a motivação e a positividade. Muitas vezes temos que sorrir, esbanjar uma felicidade esplendorosa e o medo que ronda nosso cotidiano, o desemprego, a violência, os processos políticos do país e do mundo, são subtraídos da nossa alma como indesejáveis.

Lembro-me de um dia em que estava em uma palestra motivacional. O palestrante, muito bem engravatado e sorridente, mostrava-nos imagens de sol nascente e pessoas felizes compartilhando a vida bela e sem problemas, dignas de um paraíso. Contudo, na impossibilidade de retirar dos ouvintes o espectro dos problemas da vida real, ele buscou direcionar culpa para alguém e, obviamente, como tudo pende para o lado mais fraco, a culpa era das pessoas que estavam ali desmotivadas, tomadas pela desesperança e pelo pessimismo.

Ele apregoava um indivíduo uno, total e fechado em si mesmo, nenhuma influência externa o desestabilizava. Afinal de contas, tudo depende dele e ele é o centro de tudo. Os processos históricos, econômicos, sociais e culturais foram cortados de cena, o que importava era até onde os sonhos dele podem e até onde o indivíduo se esforçava para conseguir o sucesso que, claro, ele, o palestrante, tinha conseguido com persistência e disciplina.

Esse indivíduo ideal não foi montado apenas pelo palestrante, ele era apenas um veículo pelo qual uma lógica disciplinante estava sendo difundida. Esse indivíduo dócil, sempre feliz e contente é perfeito para a lógica do mercado. Ele é resiliente, não questiona e aceita que tudo está como deveria estar e o culpado pelo fracasso é apenas ele e mais nada. Retirada a responsabilidade do mercado e seus ditames, a vida segue como um nascer de sol embalado com uma música instigante e palavras muito bem ensaiadas que pregam o sucesso inexorável.

De repente me vi em uma manifestação desmedida de euforia e gritos, onde a sugestionabilidade promovida pelo palestrante permitiu a manipulação dos afetos e da intensidade que cada sujeito ali continha dentro de si, onde a culpa e a sensação de incapacidade se encontrou com a euforia provocada pela música e pela sonoridade das palavras que dançavam, esvoaçantes, com o ritmo.

Isso me remeteu a algo terrível, me senti em um episódio da série Black Mirror. Ampliando a analogia, o espelho que surgiu em minha frente refletia o lado oposto da euforia ali desencadeada em larga escala, consegui ver as multidões que saem dessas palestras “motivacionais” para a farmácia comprar psicofármacos e analgésicos pela exaustão do labor diário, a solidão que inevitavelmente nos rodeia apesar de dividirmos espaços com milhares de pessoas no mundo, o individualismo que nos torna indiferentes aos outros e impede a conexão e o calor humano. Um protótipo da vida contemporânea emergiu dessa experiência como uma desagradável imagem da realidade. Em tempos de redução, pauperização e objetificação do humano o que nos sobra, talvez, são botões emocionais, meio embotados, onde acionamos, sem muita graça, pequenas doses de ânimo para o enfrentamento do mundo encantado do consumo e da tecnologia. Meio robóticos, alguns saíram motivados daquela palestra. Outros saíram culpados e outros, assim como eu, horrorizados.

One thought on “O sucesso inexorável

  1. Há filmes interessantes e que trabalham a sordidez da sociedade para com isto que conclamam como sucesso, um dos quais é de Win Wenders e se chama O hotel de um milhão de dólares, onde todos os personagens seriam talvez anti-heróis, talvez o único será aquele que é ao final o assassino procurado pelo detetive. Há um cinismo constante neste filme, mostrando o quanto a mídia pode intervir no cotidiano e este cotidiano (os comuns) jogar com a mídia o que tanto ela deseja, audiência e sucesso.

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