O corpo urbano

Tenho conversado com muitas pessoas sobre seus empregos e sua rotina. A maioria descreve um cotidiano marcado pela velocidade, pelo imprevisto e por uma…

Tenho conversado com muitas pessoas sobre seus empregos e sua rotina. A maioria descreve um cotidiano marcado pela velocidade, pelo imprevisto e por uma desestruturação do planejamento, pois veja, a maior parte do tempo estamos dentro de situações e circunstâncias que independem dos nossos desejos e da nossa capacidade de controle.

Dentro das situações e circunstâncias que estamos expostos e alheios, tenho procurado pensar de que forma a estrutura da cidade nos coíbe, constrange e oprime. O transito, por exemplo, está fora do nosso controle e sem dúvida alguma é um fato desagradável do nosso dia a dia. Mas o que diz as ruas da cidade sobre o descaso com o humano na contemporaneidade? Tenho ficado inclinado a pensar que as cidades não foram construídas para as pessoas, pois estão cada vez mais cercadas de condições físicas degradantes e opressoras para a subjetividade humana, que coibida e constrangida pela corporificação da lógica mecânica e funcionalista da vida, reduz-se cada vez mais a construção de indivíduo fechado em si mesmo.

Para pensarmos o ambiente físico da cidade em relação ao humano podemos partir do corpo como referência. Destarte, podemos observar as ruas e avenidas da cidade e a forma que nos acomodamos no ambiente: estamos confortáveis nas ruas? Nossa corporeidade é contemplada com espaço suficiente para desenvolvermos nossas relações uns com os outros, com a natureza, com os objetos, instrumentos e materiais ao nosso redor?

A resposta provável para essa pergunta é não. E não é para menos, pois se a cidade foi planejada para promover o bem-estar, acho que não estamos tendo tanta eficácia. A lógica que comprime o tempo e o espaço está imbricada com os ordenamentos do mercado e das indústrias. As ruas comportam melhor as máquinas que as pessoas pois, com o passar do tempo, fomos reduzidos ao que podemos fazer pelo mercado e a melhor forma de fazermos. É interessante às indústrias ruas que permitam que seus fluxos de mercadoria estejam livres e não que os indivíduos tornem- se sujeitos, que comunguem da presença do outro como amigo em força política e transformadora.

A impossibilidade de conforto do corpo reitera e alicerça a impossibilidade de conforto na vida. Os espaços do corpo, dito como inteiramente privados e caseiros, são restringidos, esquecendo que aonde quer que estivermos estaremos com ele, nos compondo.

Um cotidiano marcado por essas questões também permite marcas subjetivas, impressões, representações. O ambiente da cidade, corporificando a história humana, impõe-nos papéis, impõe-nos vidas padronizadas, estereotipadas, mascaradas de vidas normais.

O corpo como rebeldia

Novamente partindo do corpo para pensar a cidade, procurei analisar como a configuração urbana nos prende não apenas a um cotidiano, mas a repetição dos movimentos do corpo. Pegamos ônibus, ficamos em pé ou sentados, entramos no carro, sentamos e olhamos para as vias, descemos do ônibus e caminhamos até o trabalho, descemos do carro e seguimos para nossas funções.

Tudo se trata da nossa funcionalidade e nunca do que somos. As ruas, com muros brancos ou acinzentados, recusam-se a cor. É preciso padronizar os muros, para que nada afete nossa atenção funcional. Exceto, contudo, quando a rebeldia picha os muros de valores reprovados por todos, como os símbolos das torcidas organizadas e palavras aparentemente sem sentido.

A repetição dos movimentos também nos condiciona a um estilo de vida, a um sentimento imanente de normalidade e normalização. Tudo está como deveria estar. Nada nos encanta, pois temos a convicção de que a imaginação, o encanto e a abstração são próprios da infância, lugar onde são jogadas todas as nossas fantasias e surrealidades.

A ludicidade, a contação de histórias e o estar junto, deu lugar a um silêncio incomum. E quem conversa alto com seus amigos e conhecidos, por exemplo, no ônibus ganha rótulo de incivilizado. Qualquer excesso é visto como de mal gosto, pois a cidade não permite excessos. Todos precisam estar normais, meio dormindo, meio humanos. O resto é máquina, cálculo e objetividade. Os corpos se movimentam em várias direções, o dia é recheado de atividades, mas os movimentos são os mesmos e o pensamento precisa estar focado no sucesso, geralmente futuro, em detrimento do presente, do prazer do corpo, que vai além do sexo. Corresponde a relação de nós com nós mesmos, com os sentidos e a aglutinação de sentimentos e emoções que a vida nos provoca.

 

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