Docentes Inglórios

Tenho tido a oportunidade de vivenciar o contexto educacional da cidade de Maceió do lado de dentro. Tenho visto e experimentado de seus prós…

Tenho tido a oportunidade de vivenciar o contexto educacional da cidade de Maceió do lado de dentro. Tenho visto e experimentado de seus prós e seus contras. Algo em particular tem me chamado a atenção ultimamente: como se constrói o dia a dia das escolas. Um dia a dia marcado pela intensidade dos afetos e pela construção intersubjetiva do sentido do trabalho.

Entre conversas de corredor e bate-papos dentro da sala da aula, professores, coordenadores e diretores dividem expectativas e frustrações. O cansaço e o contato direto com as diferentes realidades que se expressam em cada aluno torna o território das emoções uma verdadeira corda bamba que oscila entre o amor pela profissão e a frustração pela falta de efetividade e reconhecimento do labor diário. Sem o suporte do Estado, professores fazem o possível e o impossível nas escolas e, segundo eles, precisam assumir variadas funções as quais nem sempre estão capacitados. No dificultoso caminhar da educação pública, quem segura sobre o peito o peso da própria humanidade é o professor. O que fazer quando padecemos no paraíso?

Entre os sentimentos que emergem nas salas de aula, foram identificados pelos professores a angústia, como resultado do estresse do contato direto com os alunos que desrespeitam, respondem e desafiam, e o amor, resultado do interesse e cuidado para os que depositam sobre eles, apesar dos pesares, os desejos e expectativas para o futuro.

Fadiga e sobrevivência

Ser professor é uma tarefa árdua e o cotidiano é marcado pelo cansaço e pelo sentimento de desvalorização. A fadiga não está apenas no corpo físico, mas, sobretudo, nas emoções. O embotamento emocional se torna a alternativa para o não envolvimento, o não encontro com a realidade dificultosa a ser encarada como única opção de sobrevivência e efetividade social.

Contudo, não apenas os alunos aparecem como precursores do esgotamento emocional dos docentes, o sistema educacional também é citado. A escola não se resume apenas a professores e alunos, é uma instituição e as realidades institucionais muitas vezes carregam relações assimétricas de poder. Há, por parte do governo, o descrédito em relação aos professores e seus movimentos. O desfavor, a pressão dos pais dos alunos e da sociedade inibem e controlam a única ferramenta para reivindicação de melhores condições de trabalho: a greve. Mais uma vez a fadiga impõe-se sobre o desejo; e o sonho é deixado de lado pela sobrevivência.

A solidariedade como suporte

O que fazer com uma ferida que está sempre aberta? Eis a questão primordial para o resgate da autoestima e do sentido do trabalho docente. A construção de novas relações, na medida do possível, pode ser uma das saídas. A escuta mútua, o apoio e a solidariedade pode permitir que seja escoada a intensidade dos afetos outrora reprimidos. A compreensão da afetividade do outro abre margens para o reconhecimento dos próprios afetos, do próprio cansaço e dos rumos da própria vida. Na troca de sentidos e vivências todos ganham e todos comungam de um mesmo nicho de sofrimento.

Enquanto profissional que vai ao embate do cotidiano e que vivencia as contradições de uma sociedade violenta e opressora, o professor carrega sobre si a expectativa do futuro e o peso do presente. Certamente haveremos de sofrer, mas sofrer sozinho é ainda mais penoso.

 

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