As máscaras não pensam: consequências reais de um Eu virtual

O mundo das redes sociais alterou nossas vidas de forma permanente. O crescimento das mídias, redes sociais e diferentes tecnologias ultrapassaram a capacidade de…

O mundo das redes sociais alterou nossas vidas de forma permanente. O crescimento das mídias, redes sociais e diferentes tecnologias ultrapassaram a capacidade de desenvolvimento das nossas formas de relacionamento conosco e com os outros. As redes sociais são os locais aonde compartilhamos uma imagem de nós, uma representação nossa a cada momento de nossas vidas. Temos, agora, a capacidade de acompanhar o desenvolvimento dos outros em tempo real. As atividades alheias são compartilhadas como um recorte da vida prática, um protótipo da vida real.

É inerente a nós humanos a interlocução entre os mundos interno, nossa subjetividade, e o mundo externo, o mundo da alteridade. Numa sociedade extrovertida e da aparência, estamos fadados a supervalorizar a exposição. Dessa forma, é comum nos pegarmos gastando uma energia imensa para tirar a melhor foto, o melhor ângulo, a melhor característica das nossas vidas para ser compartilhada. Ao tirarmos uma foto no intuito de compartilha-la, estamos fragmentando o presente para projeta-lo ao futuro, onde os outro poderão curtir e comentar. Os instantes do presente deixam de ser experienciados para um deleite futuro de si, em comunhão virtual com os outros. Desse modo, ao não valorizarmos a experiência presente em detrimento do futuro, criamos uma situação imagético-afetiva, projetada na fotografia, para que possamos reviver, de forma ilusória, uma realidade.

Presente e futuro são eixos de temporalidade hipervalorizados no mundo contemporâneo. Por essa razão estamos sempre nos reinventando, deixando flexíveis nossas identidades. Os quereres, o reconhecimento de quem se é precisa necessariamente de um devir, de modo que, frenéticos, ficamos ansiosos para experienciar um futuro, que nunca virá. Entretanto, as fronteiras entre as três instâncias de temporalidade (passado, presente e futuro) são ultrapassadas através das redes sociais. Trechos da nossa vida no passado podem atualizar-se, reavivando experiências de anos atrás e trazendo consigo a responsabilidade de atos que em outras épocas talvez ninguém notasse.

É o que acontece, por exemplo, com alguns youtubers, influenciadores digitais e vlogueiros. A busca intensa por atualizações do presente para que se tenha um futuro faz com que esqueçamos do passado, de modo que nossa subjetividade desintegra de sua totalidade, afinal de contas, também nos constituímos da nossa história, dos nossos erros, de concepções, ações e valores que tínhamos e não temos mais. A dimensão do passado também nos integra com os outros, nos alinha a perspectivas mais profundas pois comparamos contextos, situações e comportamentos do passado para escolhas mais assertivas no agora.

Para que desenvolvamos uma forma de nos relacionarmos com mais responsabilidade nas redes é bom termos em mente que o tempo das mesmas é diferente da nossa experiência de tempo linear. Nas redes, os eixos de temporalidade se confundem, estão sujeitos a alterações, atualizações maliciosas e interferências que fogem ao nosso controle. Ponderar, neste contexto, refere-se a conectar-se com certa lógica na exposição das nossas particularidades. Ponderar requer a consciência de que o que expomos nas redes não é quem nós somos no mundo da vida, é um recorte de momentos e situações. Se não existir a divisão entre o sujeito do mundo da vida e o sujeito do mundo virtual não vai haver ponderação, pois ambos são diferentes e esta diferença precisa estar clara. Afinal de contas, o sujeito da vida real é o único dos dois que responde pelas ações nos ambientes virtuais e reais.

Não se trata de esconder quem somos ou o que fizemos no passado, se trata da nossa capacidade de projetar consequências possíveis sobre os nossos atos, de perceber que nossas intenções são interpretadas de diferentes formas por diferentes grupos, de reconhecer que erramos e sempre existe a possibilidade de errar e por isso procuramos formas de evitar erros e problemas desnecessários. Os outros sempre vão ver o que nós permitimos que vejam e toda exposição carrega um perigo em potencial. Estarmos atentos não é um problema, muito pelo contrário. É preciso lembrar que passado, presente e futuro estão imbricados de forma complexa nas redes sociais e nossos pensamentos precisam alcançar essa complexidade, prevê-la, adapta-la e discuti-la. As relações na internet exigem estes movimentos.

É imprescindível reconhecer o nosso passado para desenvolvermos a faculdade de darmo-nos uma história, um eixo que compõe um Eu, único e em contato com diversos outros. Tecer narrativas de si, refletir sobre as possibilidades e impossibilidades das nossas capacidades é necessário. Sem esquecer que se não fizermos isso sempre haverá quem faça por nós, nem sempre de forma agradável ou compreensiva.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *