A escola é dos afetos

As humanidades em choque no ambiente escolar revelam uma faceta do desespero que vive a educação. Entre a ineficácia e a desvalorização, gestores e…

As humanidades em choque no ambiente escolar revelam uma faceta do desespero que vive a educação. Entre a ineficácia e a desvalorização, gestores e funcionários tentam sobreviver dentro e fora da escola. A educação carece de ânimo, mas a realidade recusa suas tentativas de esboçar sorrisos.

Os meus estudos em psicologia escolar me direcionam aos alunos, seus problemas de aprendizagem, suas carências e necessidades. Falta, contudo, uma ação voltada aos funcionários e principalmente aos gestores. A ação precisa ser voltada as representações que povoam o universo dos gestores escolares, que sobrevivem engolindo a amargura de todos os outros e está sempre preso em uma teia de afetos, que, na maioria das vezes, só dificultam suas ações.
Na tentativa de sermos ouvidos, procuramos, retornando a infância, quem nos acuda e nos dê suporte. A referência aos pais, mesmo que pareça antiquada nesse contexto, faz todo o sentido quando vivenciamos o ambiente escolar diariamente. As reclamações, a raiva, o ódio e a desesperança são sempre direcionadas aos pais na infância e na adolescência, na tentativa de obtermos a atenção necessária a nossos afetos sempre mais importantes que os dos outros. Na escola não é diferente, apenas a imagem dos pais se desloca aos gestores e, a partir desse momento, temos a demonstração da falta de maturidade emocional de diversos integrantes do contexto escolar.

O outro, na escola, é sempre uma potência dramática. A qualquer momento o outro pode fazer mal a alguém. A desconfiança é parte integral do cotidiano escolar, mesmo quando aparentemente todos se dão muito bem. Sorrateiramente, grupos se reúnem nos corredores. As falas são carregadas de críticas de uns aos outros e uma enxurrada de afetos tomam conta da experiência grupal, criando nódulos no corpo escolar através de uma somatização coletiva de uma afetividade intensa.

A densidade dos afetos fica cada vez mais comprimida numa redoma individual onde escoam as emoções e sentimentos considerados reprováveis, a raiva do outro tem um lugar especial nessa redoma mesmo que o outro não tenha feito nada para legitima-la. As emoções circundam as relações interpessoais na escola e tudo se direciona a explosões, seja por qualquer motivo, por qualquer conduta.

As escolas são locais predominantemente femininos, locais onde são firmados estereótipos de gênero e onde emergem conflitos, sempre inflamados, entre mulheres. Os corpos femininos passeiam pela escola esbarrando uns nos outros, procurando detalhes ínfimos para a competição. Professoras querem fazer a atividade melhor, a mais bonita, a mais enfeitada, a mais vistosa. A sala de aula é um espetáculo complexo de desejos entre mulheres, quem será a mulher alfa? Privadas dos espaços de poder por tanto tempo as mulheres buscam na escola um território de disputa, onde podem treinar as suas habilidades políticas e ensejar a autoridade e o autoritarismo. Contudo, nas conversas entre elas, o marido detém o poder da casa, da compra de objetos caros e da manutenção de um equilíbrio pautado nas tradições onde sempre são os provedores.

A contradição não é apenas um aspecto negativo do embate entre mulheres. Demonstra, talvez, a impossibilidade de autonomia social que muitas vezes se agarram a identidade pela repetição. Em casa, assumem o papel de esposa, mãe e amante. Na escola, donas do próprio nariz, respeitadas por sua posição e prestígio. Ser professor é realmente admirável, ainda mais em contextos como o nosso. As performances de gênero legitimam as competições violentas entre as mulheres, convidando-as a distração do que realmente importa: a valorização de suas próprias companheiras para o fortalecimento político da mulher nos mais diversos ambientes da vida pública.

 

 

 

 

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