A crise humana em tempos de ódio

Não é novidade que a vida na modernidade tardia compele os indivíduos a uma vida de marasmo existencial provocado por uma compreensão do mundo…

Não é novidade que a vida na modernidade tardia compele os indivíduos a uma vida de marasmo existencial provocado por uma compreensão do mundo voltada para o irreal, a fantasia e o fetichismo do consumo. A falta de apreensão de um sentido na vida, de uma ação social própria da vida pública exerce um poder coercitivo conta a subjetividade.

O estilo de vida gerado pelo modo normativo de consumo difundido pelas tecnologias e publicidade reflete em maneiras de ser carentes de autenticidade e sentido. O que é comunitário, social e público é relegado ao secundário, quando não é totalmente excluído da vida do sujeito. O desmembramento dos alicerces da cultura comunitária faz com que alguns de nós tentem alternativas difíceis para manter esse senso social. Daí surge a necessidade de pertencer a um grupo com um pensamento contrário a tendências progressistas, por exemplo.

O dilema da vida se transformou em como nós podemos sobreviver a esse vazio existencial que a sociedade nos impõe. A necessidade de ser alguém sempre nos acompanhou enquanto humanos, mas hoje decidimos reiterar toda e qualquer medida para que isso aconteça, mesmo que extrapole o limite da boa convivência e do respeito a dignidade alheia.

Observamos que todos vivem numa aparente normalidade, que a vida passa rápido e que ao olharmos pelas janelas só vemos o movimento da cidade, vemos diferentes pessoas passando pelas ruas e talvez nunca as conheçamos, nunca estreitaremos laços ou nos importaremos com elas, pois já foi dada a largada para nós e conceitos chave regem essa jornada: trabalho com ausência de sentido para o indivíduo e para a sociedade, desvalorização do ser humano e de seus aspectos mais íntimos e frágeis, desqualificação do outro para entendermos a nós mesmos no tempo e no espaço.

A melancolia que nos acompanha nos processos atuais reflete o cinza mórbido do concreto que os muros e delimitações de espaços privados cravam nos pontos mais sensíveis da alma humana. Com a televisão ligada, os vídeos no YouTube tocando, as mensagens chegando no WhatsApp e Facebook, o indivíduo apenas age de forma excessivamente repetitiva, compartilha coisas mesmo que ela não acrescente nada a ninguém.

Dias passam, meses, anos e os mesmos movimentos são executados, programados e estáveis. Nada pode alterar a paz necessária a ordem da dinâmica de produção-consumo. Emoções são geradas e precisam ser esquecidas, a final de contas, é necessário deixar os problemas em casa para que trabalhemos com eficácia, quando voltamos para casa queremos mais é nos distrair e retornamos a televisão ligada, os vídeos no YouTube, etc.

Ninguém pode se indignar, vivenciar a autenticidade da revolta das condições que somos todos expostos. Alguns mais que outros tentam se adaptar a essa situação. A cultura da adaptação ronda o pensamento social a séculos e rejeita a angústia do questionamento mesmo sabendo que, de alguma forma, é impossível manter-se adaptado a algo que nos corrói. Podemos até achar que nada disso nos pertence e que tudo é intriga da oposição, mas, de fato, há uma realidade que nos interpela, mesmo que tentemos nos esconder.

A crise do humano atualmente é a incapacidade se suportar enquanto sujeito, de arcar com a responsabilidade de estar vivo. Passamos a odiar os Direitos Humanos pois de fato achamos que nós não somos tudo isso que imaginávamos e que o sonho da sociedade perfeita, da personalidade perfeita e do corpo perfeito está caindo diante dos nosso olhos.

Decidimos odiar o outro e todos aqueles que são diferentes do que achamos ideal na tentativa de se odiar menos e procurar amar o que está posto, da forma que sempre foi. Há algo de suicida no pensamento social que acolhe o ódio como energia primordial de movimentação da subjetividade, uma tendência a destruição, algo que aglutina o desamor e nojo de si mesmo, enquanto humano, enquanto desejo.

Uma característica marcante de nossa época é o estímulo a baixa autoestima, programado no comportamento social, na forma que entendemos que todos devem ser. Não toleramos que uma pessoa seja espontaneamente bem resolvida com questões estéticas, que pessoas procurem reverter situações de preconceito com o corpo, pois deixamos de lado o que há de humano na perspectiva do direito de existir como se é e colocamos tudo isso como “mimimi”.

Mulheres que se opõe ao feminismo, gays que se opõe a comunidade LGBT, são a demonstração não só de ingenuidade política, mas um fenômeno que se relaciona com a baixa autoestima, da incapacidade de ser ver como protagonista de lutas em prol de interesses muito além dos individuais.

A crise que vivemos hoje é humana e humanitária. É o momento que a civilização tem o potencial para fazer emergir forças que valorizem o ser humano ou o contrário. Sobretudo, é preciso coragem, principalmente para lidar com tudo aquilo que sabemos que nos diz respeito, pois se a crise é humana e na concepção de uma humanidade com direitos fundamentais, é uma luta de todos nós.

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