Sadismo e bondade violenta marcam a pistolagem no Brasil

O sadismo e a bondade violenta marcam o poder e a pistolagem no Brasil. É assim desde a Colônia, foi assim no Império e…

O sadismo e a bondade violenta marcam o poder e a pistolagem no Brasil. É assim desde a Colônia, foi assim no Império e o período republicano- sob a ditadura ou não- não embaçou a onda dos corajosos armados, espalhados no sertão de Alagoas, nas terras griladas da Amazônia, nas comunidades cariocas dominadas pelo tráfico e seus tentáculos na política.

Não nos enganemos. A pistolagem que elimina mais de 60 mil pessoas no Brasil por ano é recurso de sobrevivência, de briga por território e da tensão do prevalecer do mais forte. Os donos de engenho, para serem temidos e adorados, sabiam que o fazer sofrer dos dominados e o assistencialismo mais ralo eram as marcas deste Brasil profundo.

Na República, os marechais Deodoro e Floriano Peixoto foram tão violentos no massacre aos movimentos contrários ao novo regime que a República neste período se chamava “da Espada”. Não foi diferente quando os fazendeiros de café e leite- em tese com seus herdeiros formados em Coimbra ou Olinda- assumiram o país na República Velha. O fim trágico de Canudos em 1897 em nada é diferente do extermínio do nosso Quilombo dos Palmares, 200 anos antes, pelos bandeirantes paulistas- talvez a representação do brasileiro mais bruto e violento da nossa psicologia.

E vejamos nas nossas escolas, onde o professor é orientado a ser tolerante mas enérgico; a polícia tem de carregar o ar da disciplina aliada à ameaça de castigo aos bandidos ou de morte. Onde defendemos que os pais não devem bater em seus filhos mas aplaudimos o bandido bom mas morto.

E não era incomum que abolicionistas brasileiros- fartos donos de terras- proibissem a exposição de suas mulheres em públicos e seus filhos não poderiam brincar na rua, porque a rua era lugar de maloqueiro.

Eis o nosso Brasil de violências e tantas contradições. Onde, na democracia, Jair Bolsonaro encanta o público mais jovem ao falar da ditadura ou provocar o ataque aos direitos humanos- “coisa de bandido”. Talvez seja isso um reflexo de cansaço com as nossas instituições, caras, pouco eficientes e em busca da proteção dos próprios privilégios.

Somos ainda o nosso passado. Passado de sadismo e de benesse. Onde o poder é brando com quem manda. Duro para os moles. Moles do outro lado do balcão.

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