Queermuseu (ou: você leria a Bíblia para seu filho antes de ele dormir?)

Tempos de Tribunal do Facebook, onde a hipocrisia virou critério para julgar e condenar as pessoas. Mostra “Queermuseu- Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”,…

Tempos de Tribunal do Facebook, onde a hipocrisia virou critério para julgar e condenar as pessoas.

Mostra “Queermuseu- Cartografias da Diferença na Arte Brasileira”, em Porto Alegre. 270 obras acusadas de incitar a pedofilia, profanar a imagem de Jesus Cristo. E outros adjetivos.

O MBL protesta contra as imagens. Pressionado, o banco Santander encerra a exposição.

Bíblia. O livro mais vendido do mundo. Símbolo de religiões, orientadora da fé entre pacifistas, homicidas, cientistas, cegos da razão, ascetas, ateus.

Uma criança se deita na cama. A mãe- religiosa ou não- decide ler um trecho do livro sagrado por dia, do Gênesis ao Apocalipse.

Alguns trechos terão de ser saudavelmente explicados.

Gênesis 22: Abraão, mandado pelo Senhor, leva ao sacrifício Isaque, seu único filho. Um anjo o impede. Está provado que Abraão teme a Deus.

Deuteronômio 22: a mulher desposada deita com outro homem. Ambos devem ser trazidos à porta da cidade e que sejam apedrejados. Se for estupro, ela terá de gritar bem alto, para não morrer a pedradas.

Mateus 10:34. Disse Jesus, representante mundial da paz. Pregador da não-violência: Ele não veio trazer a paz, mas a espada.

Explicações que podem ser feitas pelo fanatismo. Ou o natural esclarecimento das camadas de períodos históricos nas centenas de livros agrupados por séculos.

Brasil. País que mais mata no mundo, em locais onde não existe guerra. Negros, mulheres, LGBTs. 56 mil extermínios por ano. Silêncio nos jornais.

Agressivo, o MBL- herdeiro da Aliança Integralista Brasileira (fascismo misturado a palavras bíblicas com interpretação livre)- diz que a exposição cancelada em Porto Alegre “é o símbolo do ultraje e do nojento”.

Quem financia o MLB? A resposta não deve conduzir nem ao nojo nem ao ultraje, por certo (?).

Como interpretar um mundo por algumas imagens?

Ou como transformar partes destas imagens num todo?

O amigo leitor levaria seu filho para o Queer Museu?

Leria a Bíblia todas as noites para seu filho?

Em tempos de fascismo travestido pelos puristas do Tribunal do Facebook, a intolerância- velha companheira da humanidade no seu rastro de sangue- pressiona o acesso aos bens culturais.

A intolerância matou no passado, no presente e vai continuar matando. Porque ela reivindica o próprio direito. Adequar o mundo às próprias verdades. A verdade conveniente.

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