Coaracy Fonseca: Ao meu pai, com amor

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça Viver é lutar. Foi na poesia de Gonçalves Dias que a saudade de…

Coaracy Fonseca é promotor de justiça e ex-procurador Geral de Justiça

Viver é lutar. Foi na poesia de Gonçalves Dias que a saudade de meu pai veio embalada, esta manhã.

Esta nostalgia vem se fazendo cada vez mais presente em minha vida, à medida que o tempo passa, como se o reencontro em um dia, que desconheço, pudesse ser descrito como uma visão de terra à vista, fazendo emergir a expectativa e a ansiedade do aportar, sem data marcada, em lugar abensonhado.

Ah, orador, que falta você me faz!

Ao escrever essas minguadas linhas, neste dia ritual, resolvi abandonar o meu corpo, por breves instantes. Lembrei-me das lições do prisioneiro de Jack London: “Corte todos os meus dedos. Eu sou eu. O espírito está inteiro. Corte minhas mãos. Corte meus braços pelos ombros. Corte minhas pernas pelos quadris. E eu, o eu inconquistável e indestrutível, sobrevivo. Serei menor por causa dessas mutilações, dessas subtrações da carne? (…) apenas o corpo pereceu, e o corpo não sou eu.”

– A sua benção, meu pai. – Deus o abençoe, meu filho. – Ando com algumas dúvidas, preciso de uns conselhos seus. – Ah, meu filho, a essa altura de sua caminhada você deve tomar as suas próprias decisões, lembre-se de todos os momentos em que estivemos juntos, quando eu apontava as situações do cotidiano, fazia indagações, olhava para você e esperava uma resposta, uma conclusão.

– É verdade, meu pai. Veio-me à memória a lembrança daquela tarde, quando um rapaz que conduzia um carro de mão olhou para a criança que o acompanhava e com um gesto ligeiro colocou-a nos braços e, em seguida, acomodou-a entre os objetos que transportava e seguiu em frente, impondo a si mesmo um peso maior.

– Foi quando o senhor me perguntou a razão daquele ato lesto e minha resposta não foi precisa. – Sim, meu filho, eu me recordo bem, ao pôr o irmão mais novo na “carroceria”, já repleta de objetos, o sentido silencioso era de proteção e, muito ao contrário, a caminhada dele tornou-se mais leve e branda.

– Proteção, solidariedade e harmonia são móveis que devem guiar a nossa vida, senão não vale a pena a passagem por esse torrão. Naquele instante, ele tinha a força de um condutor e decidiu, decidiu bem. Não vim agora para lhe dar conselhos, mas posso relembrar alguns ditos: “passarinho que anda com morcego dorme de cabeça para baixo”; “quem anda com porcos farelo come”, e outros que agora não me ocorrem.

– Estou interessado, mesmo, é em ver uma boa briga de galo, ouvir o canto de canários da terra, dos galos de campina, curtir os netos e vibrar com as vitórias do meu CSA. O resto você resolve. Ah, andei sabendo que vem por aí um bisneto.

– Só mais uma coisa, em relação aos filhos não adianta muitas palavras, lembre-se que eu levava você ao futebol, ao tribunal do júri, recitava poemas, ia à livraria aos sábados, e não falava nada, mas me parece que você absorveu alguma coisa.

– Mas pai, sei da sua pressa, mas preciso informar que algumas de suas diversões não são mais possíveis, são proibidas pelas leis ambientais. Hoje as pessoas são mais politicamente corretas.

– Estou vendo, meu filho, está tudo uma beleza no Brasil. Foi muito bom falar contigo, estou sempre à disposição, mas não tenho mais paciência para dar conselhos, quero mesmo é aproveitar a vida. Um beijo e um abraço forte, diga a todos que mandei lembranças. Vou ver agora uma briga de galo, porque hoje é sábado.

Voltei, ufa!

E assim a vida segue. Como disse o grande Antero de Figueiredo: “Recordar é acordar. Só acordados somos vivos. No presente somos mortos. Recordando, ressuscitamos. E então vivemos conscientemente a vida inconsciente que por nós correu.”

Hoje presto uma singela homenagem a todos os pais, em nome de meu pai, José Alde Mata da Fonseca, que ainda está entre nós, mas não mais como era antes.

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