Venci os nãos: sou escritora!

As trajetórias desconhecidas do outro continuam sendo desafios às convicções que nos levam, tantas vezes a julgamentos apressados, que podem nos tornar algozes de…

As trajetórias desconhecidas do outro continuam sendo desafios às convicções que nos levam, tantas vezes a julgamentos apressados, que podem nos tornar algozes de quem deveríamos por força de causa, fortalecer nas lutas humanas.

Me percebi, enfim, apresentando a mim mesma como escritora. Uma sensação antiga invadiu meus pensamentos…

Eu, que aos seis anos de idade já lia e escrevia historietas, precisei vencer mais quarenta anos de barreiras invisíveis para enfim, assumir aquilo que sempre soube ser: escritora!

Ter sido uma aluna diferente nunca me elevou, mas ao contrário, instigava outras pessoas a buscarem defeitos, que pudessem ser jogados na balança, como um contrapeso para que a inteligência não pesasse mais. E assim, eu “era inteligente em português mas muito fraca em matemática”, “tinha olhos verdes, mas cabelos cachados demais”…

Adolescente, me transformei na escrevinhadora de quem quisesse enviar cartas, mensagens de aniversário, declarações de amor, e no Natal, os cartões em branco se apinhavam para que eu acrescentasse uma mensagem; tudo era feito com extremo desinteresse da minha parte, por estar fazendo aquilo que mais gostava: escrever!

O caso de uma “coleguinha” que diariamente me pedia para escrever uma poesia no seu caderno, foi um susto tempos depois: ela organizou seu livro de poesias com as minhas poesias, que se tornaram dela. Tempos depois publicou.

Fui descobrindo a escrita como um ponto forte. Mas fazer esta força valer não era simples. Existiam portas pelas quais teria que passar caso quisesse transformar o “dom” em arte, mas estes portais mágicos nunca me atraíram, e no fundo, me causavam repulsas.

A vida adulta poderia ter provocado a cisão definitiva com a escrita, e novamente, a extrema mobilização da reação pessoal foi decisiva. Havia uma identidade de resistência em mim. Sem dúvida alguma, a vida acadêmica foi o melhor pretexto para escoar um conteúdo mais amadurecido e burilar o teor de criticidade que caracterizou minha história, e ainda continua fazendo.

Ainda assim, os espaços eram disputados de modo ferrenho. Muitos se arvoraram em postos de pseudo-limitadores do meu alcance. Não acreditava neles, mas reconheço que dificultaram o caminhar.

Todos os pontos pareciam trabalhar contra os melhores propósitos de ascensão da escrita: mulher e militante de esquerda; mãe de quatro filhos; interiorana e professora da rede pública.

Minha monografia foi sobre escolaridade em Alagoas na análise literária de Graciliano Ramos.O diploma de cientista social, que para mim era tão importante, seria apenas um acessório ou documento utilizado para aumentar pequena porcentagem no salário após quatro anos de análises das gestões às quais estava submetida.

O mestrado foi novo canal de escape para a identidade já oprimida, mas foi também uma triste experiência de opressão, quando entre os cinco funcionários públicos da minha turma eu fui a única que não conseguiu liberação para estudar. Equilibrei na corda bamba da subjetividade nocauteada, duas escolas públicas, um lar e as aulas na UFAL.

Escrevi com lágrimas uma dissertação sobre racismo na escola e senti o adoecimento envergando o corpo nos primeiros sintomas da fibromialgia. Meus filhos brincavam me chamando de “Maria das Dor”! A vida passara a doer mais.

No entanto, o céu nublava e ficava espesso, porque uma grande tempestade se formava na história da minha vida.

A comemoração por ter sido aprovada na prova objetiva da etapa do doutorado, marca também a última foto com meu filho Alexystaine, que seria assassinado aos dezesseis anos, em contexto covarde e brutal. Fui reprovada no projeto, e no final daquele novembro veio a perda, o choque, o luto e a luta.

O que eu sabia fazer de melhor por certo, ainda era escrever! E assim o fiz. Gastava a dor nos textos , nas denúncias, declarações de eterno amor. Dormia durante o dia e escrevia pelas madrugadas. Recebia o alento de uns e vomitava a ignorância de muitos, que mais uma vez tentavam me conter, prender ao limite de uma condição criada para oprimir. Agora eu era mãe de vítima! E toda vítima de violência em Alagoas tem suas culpas!

Resolvi não aceitar. Mais uma vez impus um alimento caro e escasso à identidade cambaleante, mas era preciso repetir o salto da sobrevivência.

O primeiro livro, co-autoria com Odilon Rios, “Bastidores da violência ( e dos violentos) em Alagoas” não foi suficiente para me tornar escritora. Era tratado como desabafo de uma mãe desesperada.

A batalha para vender a obra era de origem política! Eram denúncias salpicadas de bom senso, pois as expectativas de grupos truculentos precisavam ser levadas em conta.

O tempo acomoda as agonias, mas não necessariamente faz cessar os que as gera. Viver marcado pela dor infame não significa que um dia ela pare de ferir, mas é do ser humano seguir em frente. E transformar a monografia em novo livro foi impulso salutar, assim nasceu “Construção da Alma Alagoana: de Graciliano aos nossos dias”.

Livro meu. Com apoio de Odilon Rios, mas escrito e assinado por mim. Um grupo de amigos e incentivadores se fez presente, abrindo aqui um espaço de gratidão a Natasha Dellape e Vítor Rodrigues, forças amigas nos dois lançamentos, partindo ambos para a eternidade antes do terceiro.

O terceiro veio em dose dupla:” Alagoas, 200″ de Odilon Rios e “200 anos de Alagoas: Análise Socioantropológica”, de minha autoria. Estas obras encontraram no cenário das comemorações dos 200 anos de Alagoas um clima de euforia, e apesar de ficarem distantes do calendário oficial promovido pelo governo do estado, podemos afirmar que foram um sucesso!

A receptividade porém, não foi isenta de juízos de valor, principalmente comigo, pois uma mulher que se aventura pela escrita de natureza política longe dos vínculos com a academia parece incomodar, principalmente a alguns homens que gozam da vaidade intelectual. Ouvi as críticas sutis se me incomodar com elas, apenas considerando o ensejo de avaliar o sentido que as movimentava.

Muitos homens preteriam meu livro abertamente, e mesmo na minha frente, afirmavam interesse apenas pelo livro que Odilon Rios havia escrito. Que certamente, é maravilhoso! Mas aqui ressalto a discriminação que também trazia caráter de gênero.

No mesmo ano, 2017, resolvemos levar à lume outras duas obras: “Alagoas, poder e sangue”, fruto das pesquisas de Odilon Rios em documentos antigos com as fallas provinciais, e “Hibridismo Cultural Alagoano: o barro de onde viemos”, com muitas contribuições daquela dissertação que fiz.

Hoje, lidando com o reconhecimento de muitos setores da sociedade alagoana, ainda mantenho a chama da marginalidade na escrita transgressora, e mais um livro está em fins de gestação.

Resumo nestes trechos condensados, um pouco do que foi preciso acontecer para que soasse com naturalidade na minha própria boca: sou escritora!

As forças de todos os nãos acompanharam cada passo. A afirmação foi nova! O sim, é novo. Agora sei que sou escritora porque sempre escrevi, e a vida foi me dando elementos de aperfeiçoamento.

A classe dominante não tem interesse em me propagar como escritora, em me afirmar nesta seara. Mas a vida me ensinou, que aquilo que realmente somos, não vem de fora da gente. Sai da gente, e alcança o mundo.

Assim, os livros que escrevi e se encontram na Europa e na América do Norte, são sinais de que isso é verdade.

Para leitores e amigos incentivadores, muito axé, dessa escritora que se afirma.

 

 

 

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