Texto aos espíritas eleitores de Bolsonaro

Minha inclinação de escrita neste momento é deveras delicada, pois preciso abordar uma preocupação de caráter legítimo, embora carregada pelo risco de desagradar segmentos…

Minha inclinação de escrita neste momento é deveras delicada, pois preciso abordar uma preocupação de caráter legítimo, embora carregada pelo risco de desagradar segmentos aos quais respeito, e exatamente por isso, não poupo a crítica e o chamado à reflexão.

Estou escrevendo para os irmãos e irmãs espíritas, sobre política no ano 2018, no país chamado de Pátria do Mundo e Coração do Evangelho.

A mistura de formação cultural e ideologias classistas, caracteriza o espiritismo brasileiro pela maioria de seus adeptos se encaixar na terminologia “pessoas de bem”, criada para encapsular a elite, tornando-a muitas vezes asséptica; até disposta a praticar caridade, mas avessa à políticas de justiça social.

A insipiente formação política nem sempre é justificativa para a repulsa que muitos demonstram quando as lutas sociais e de minorias, vêm à tona; até insisto em afirmar que um ranço de classe emerge, mesmo quando materialmente falando, o irmão ou irmã pertence apenas à classe média.

A plataforma de valores tem sido mantida em patamares de alienação política e social intensa, quando para a maioria a lei do carma tem servido para justificar desigualdades, injustiças anunciadas e violências evitáveis.

Tudo isso está acontecendo, com um discurso doce sobre amor sendo facilmente espalhado, em tons românticos e infantilizados. Vistos em reuniões que se voltam a assistir e orientar espíritos desencarnados, ao mesmo tempo que os participantes apoiam pena de morte e endossam apartheid étnico e religioso.

Claro que o lado bom também é real!

A lindeza de um aconselhamento psicológico bem intencionado, uma transfusão energética caritativa e entregas de cestas básicas a quem tem fome, são atos grandes em significado. Mas não basta.

Dois acontecimentos neste dia me instigaram ao texto direcionado, envolvendo militantes espíritas aos quais conheço há muito tempo e suas ideias relativamente às eleições presidenciais.

A primeira frase pregava o não envolvimento do espírita com as eleições.

Por qual razão? Já habitam os planos intangíveis? Acaso não são afetados quando a educação e a saúde do país estão com investimentos congelados pelo prazo de vinte anos?

Ou estão esperando o aumento da miséria para fazerem mais sopa e distribuírem mais cestas básicas e lençóis nas ruas, se sentindo melhores que os outros, por poder ajudar materialmente?

Sim, eu me preocupo com o distanciamento da vida social, do mundo real de agora.

A outra frase, trazia adesão ao candidato mais violento que se apresenta no cenário brasileiro, em cujo discurso temas como racismo, misoginia, estupro, homofobia e incitação à violência armada são carros chefes do palanque.

O candidato que homenageia torturador conhecido por colocar ratos nas vaginas das mulheres vitimadas pelo período da ditadura militar em nosso país, e que alardeia pena de morte e porte de armas para todos os “cidadãos de bem”, pode ser o escolhido por um cristão espírita?

Tenho mais do que indignação, tenho asco.

Porque nós espíritas sabemos que a morte do corpo não resolve situações subjetivas dos que se desgarram, e o próprio evangelho nos convoca à mansidão, ao amor feito renúncia, ação educativa e humanitária.

Como pode um cristão espírita declarar voto a um candidato que tem como pauta destruir os “Direitos Humanos” no Brasil?

Será que os irmãos não sabem que o nosso povo é carente de direitos básicos, como comer três vezes ao dia e morar sob um teto seguro? Como podem apoiar alguém que pretende extinguir a última referência de humanidade que ainda é oferecida sem distinção de classe neste país?

Por ora, para conter a emoção que toma meu peito, encerro estas linhas na esperança de que alguns de vocês leiam.

E aviso que antes de orar por mim e pelo meu obsessor, orem por vocês mesmos para que possam se libertar da ignorância obsessiva que assola nosso meio.

Paz e Luz, se possível for.

 

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