Reverência a Nô Pedrosa

Nessa vida de aprendiz tive muitos encontros marcantes. Alguns acontecidos e outros pressentidos, aprender com alguém é sempre motivo de reverência. Mas é com…

Nessa vida de aprendiz tive muitos encontros marcantes. Alguns acontecidos e outros pressentidos, aprender com alguém é sempre motivo de reverência.

Mas é com pesar que escrevo este texto.

Tendo me recolhido para um Natal sem internet nem celular, ao retornar ao que costumam chamar de civilidade recebi a notícia que motivou a escrita, o assassinato de Nô Pedrosa. Entristecer foi inevitável, a impotência que o roubo de uma vida nos causa é muito grande. Mas tenho uma entrevista feita com ele, que agora preciso saber partilhar, em homenagem e reverência à memória daquele a quem muito admirei.

Walfredo Pedrosa de Amorim, o Nô Pedrosa, me disse coisas que balançavam minha metodologia de extração da informação oral, na dúvida se estava falando de uma história vivida por ele, ou apenas lida, em um dos muitos materiais escritos que devorava com olhos, em contraste com a vida que equlibrava a intelectualidade rebelde  cultivada na miséria, preservando o cerne de um humanismo singular, que o expunha constantemente à ação comezinha da criminalidade juvenil grassante.

Primeiro me disse que sua idade oficial não era verdadeira, havia sido aumentada por seu pai. Portanto, seria mais novo do que o registro de nascimento afirmava.  Com orgulho falava o nome da mãe: Lídia Pedrosa de Amorim, e do pai Hermes Calheiros de Amorim, oriundos da região lagunar no entorno de Marechal Deodoro e Santa Luzia do Norte. Afirmava que essa genealogia havia se radicado neste território no período oitocentista.

Os Amorim chegaram no período da guerra holandesa – enfatizava. E os Pedrosa teriam participação nas andanças de Dom Pedro, pela região do Pilar. Acrescentava que eram de origem galícia. Os primeiros Pedrosa teriam vindo pelo Pará, mas não conseguiram se adaptar à mata e migrando vieram para os lado de cá, após passagem pela ilha de Itamaracá.

Falou de um parante que adquirira fama, Paulo Pedrosa, um pintor pernambucano que foi para São Paulo e também para a Europa.

Em sua narrativa, fazia misturas de histórias, tempo e espaço. No meio das memórias familiares, acaba trazendo seu apreço pelo comunista Jayme Miranda, que segundo ele, chegou a ir para a Rússia com Napoleão Moreira.

Volta então, para os Pedrosa da lagoa, dizendo que todos eram ou socialistas ou fascistas!

Segundo ele, aqueles que habitavam a região de Satuba eram fascistas! Citou dois deles que haviam migrado para Maceió, que gostavam de Plínio Salgado e vestiram o fardão. O grito destes era: Deus, Pátria e Família!

Os socialistas frequentavam o Café Central, na Rua do Comércio, no Centro de Maceió, e seus gritos diziam: Viva a Revolução Russa! Viva o Socialismo! Pão, Terra e Liberdade!

Esta entrevista me foi concedida no dia 05/10/2016, e Nô Pedrosa me disse: Estamos em um atraso cultural hoje com a volta do fascismo.

Em momento de empolgação, ouvi de sua boca que o capítulo mais bonito desse país, foi vivido nos anos 30, para ele o mais fecundo dos períodos brasileiros.

Com crítica ácida entre sorrisos, questiona repentinamente dados de Jaime de Altavila sobre o arrebanhamento de alagoanos para a Guerra do Paraguai, pois em sua concepção, se isso fosse verdade essa terra estaria despovoada.

Como se caísse em uma estação, recordou uma frase de sua avó: Vocês falam tanto em partido, olha o partido da cana, tá faltando enxada! E se ria da lembrança.

Pois se considerava alguém criado sob a influência de movimentos que abalaram o mundo.

Voltou a criticar um escritor alagoano, dessa vez o próprio Graciliano Ramos: A prisão dos intelectuais alagoanos não foi escrita em suas memórias. Foi um ingrato com os meninos comunistas!

Quase no fim da conversa, afirmou que a democracia no Brasil é toda feita de golpes.

Como a entrevista ocorreu em uma escola pública de Maceió, na qual trabalhava, não poderia deixar de falar nela, e disse: Para nós a escola é desse tamanhinho… e fez um gesto com os dedos. Artistas bons veem uma tristeza tamanha no povo. O resto não vê nada.

Seu traçado repentino saiu com a frase: Alagoas sempre foi um estado político.

E fechou: O Brasil está vivendo algo que ainda não sentiu.

Entre o que aqui registro me contou histórias de intrigas familiares, fez críticas mal-educadas a políticos famosos e gente considerada rica, pois conheceu muitas, inclusive aquelas que “viraram a casaca” e se tornaram burguesas, indiferentes aos socialistas e comunistas do passado.

Deixei um livro com ele. Algum tempo depois me elogiou e criticou, porque achou que fiz citações demais. Demonstrou sensibilidade com uma narrativa sobre mortalidade infantil em Matriz de Camaragibe e disse que me percebia passar olhando para ele muitas vezes, antes de tê-lo abordado para a entrevista. Confessou que chegou a pensar sobre mim: Será que ela quer me amar?

Risos. Gratidão. Despedida.

Voltei a vê-lo ao longe algumas vezes, perambulando outras tantas, carregando a anomalia de ser um intelectual, homem politizado e viver entre mendigos e bandidos, nas ruas de Maceió.

Em mim sempre um suspiro e um lamento de impotência, aquele abandono feria meu olhar. Na tarde de 22 de dezembro o vi sentado em um bando defronte a Assembleia Legislativa, lendo alguma coisa, como lhe apetecia.

Dia 25 de dezembro soube que foi vítima de homicídio no dia 23.

Uma incongruência. Sinto raiva, sinto tristeza, sinto.

Reverencio e olho sua foto. Lembro do momento no qual a entrevista foi interrompida e aquele homem mal vestido e despenteado foi comprar doces para algumas crianças na hora do recreio. Elas lhe entregavam as moedas e ele trazia pipocas e pirulitos, sorrindo, como se estivesse praticando socialismo ali.

Seu sepultamento será no cemitério dos burgueses, e o mendigo mais politizado de Alagoas receberá homenagens à sua memória. Imagino o palavrão que diria se alguém lhe contasse que seria assim, e concordo com ele.

Enfim, reverencio Nô Pedrosa. Que em algum lugar melhor do que aqui, seu espírito encontre repouso e possa receber a luz de um abraço sincero de alguém que de algum modo, sempre o amou.

 

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