Religiosidade em tempos fascistas

A ignorância da fé que não reconhece o território e seus conflitos desafia o amadurecimento espiritual dos religiosos que se resignam ao conforto da…

A ignorância da fé que não reconhece o território e seus conflitos desafia o amadurecimento espiritual dos religiosos que se resignam ao conforto da alienação.

Se é plástica, não é flor! Se é conveniência, não é verdade! Se esconde a dor e o sangue derramado, não é paz!

Se a religiosidade não nos leva a atuar como agentes de profecia para uma terra saudável, se transforma em estação de repouso, para os que podem e conseguem assim viver, entre pares, a criar chumaços de nuvens, chamando de céu, o vazio do espaço.

Os religiosos que descalçam seus pés, se transformam em instrumentos divinos de elevação, como referências legítimas de amor. E não há amor, na terra, que não incomode o mau proceder, que não sofra perseguições e exponha o coração amante a riscos conhecidos.

Por essa razão, o ateu generoso e envolvido com as lutas das coletividades estende a luz da própria aura para além dos templos que entulham retardatários, que na maioria das vezes estão apenas clamando e exigindo benesses para si, para os seus.

Experiência feliz de religiosidade é aquela que leva o ser a confrontar o arcaico modo de se acreditar mais puro e legítimo diante das portas do céu, se igualando em necessidades humanas aos que sofrem e buscam acolhida.

Acolher do alto de um púlpito não revela amor, pois a mescla hierarquizada prende em sutis cadeias de status quo. A boa vinda precisa ser dada de igual para igual, em condição humana, em amplitude espiritual. E descer do topo requer sensibilidade e maturidade para não comungar com a injustiça, nem justificar a força opressora.

A experiência religiosa exitosa urge de bases sociais também. Enquanto estivermos na terra, somos membros de sociedades, e aqui está a semeadura espalhada entre o joio e o trigo das relações humanas; que por assim serem consideradas, podem ser melhoradas, aperfeiçoadas, a partir de mentalidades e princípios de equidade, a conduzirem o arbítrio.

Há trabalho na terra, para se realizar com as mãos. Misturando na massa a própria derme, oferecendo os dedos e tocando o rosto da desolação.

Ir além da assepsia cultural e poder enfim, perceber, o quanto a vida se transforma em púlpito sagrado, quando o espírito se joga na grandeza de amar com liberdade, desatando as amarras das classes e das castas, para fluir o mundo com a orientação dos pobres mártires, que nada possuíram, mas foram possuídos pela força de amar incondicionalmente.

Comecemos então o exercício, sabendo que omissão também implica responsabilidade na trajetória do espírito.

O frio necessita calor. O quente vibra e atua. O morno, poderá ser vomitado. Religiosidade é também renúncia, resiliência e recomeço.

 

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